Plataforma de informação e discussão democrática acerca de questões sociais, culturais e políticas, respeitantes aos palhacenses & CA ( aos níveis local, regional, nacional e internacional, numa era repleta de desafios). Proposta: uma sociedade civil mais desperta para os seus direitos e deveres; uma vila mais solidária e dinâmica. Mail: palhacacivica@gmail.com (pedir senha para aceder)
terça-feira, 23 de junho de 2009
LENGA-LONGA: Portugal (também) é isto
Fabricante de bandeira
Kit-Kat, Capital
Luna Park de fronteira
Falocrata à paisana
Pico pico saramico
Sanduíche americana,
Quem te deu tamanho bico?
Senta-te, não caias
Cala e come a tua mão
Menino, saia das saias
Homem não se quer chorão!
Ai não queres, adeus viola
Quem pode não sai de cima
Da foda não reza a escola
Muito perdoa quem rima
Muita carne de terceira,
Com molho tudo se engole
Pergunte à alternadeira
Se a moral não anda mole
Central talvez nuclear
Guerra sempre preventiva
Gasolina pró jantar
Que a gente em nada se priva
Era uma vez um paísà beira mar chamuscado
Porque Deus assim o quis
De cinza e negro pintado
Era uma vez uma terra
De lá vem um lá vão dois
Onde a carroça se enterra
Terão de passar os bois
Nem tanto ao mar
Nem tanto à terra
A gente ladra ao luar
Mas à luz do sol não ferra
Gira lá roda da sorte
Gosto de ouvir-te chiar
Pois do berço até à morte
Me deixarei embalar
Caluda, bolinha baixa
O Salazar é que era
O povo a toque de caixa
Nesses tempos quem me dera!
Futebol de canapé
Nossa Senhora da Bola
Tenho medo e tenho fé
Cerveja com muita gola
Oh Senhora dos Parolos
Que fazes numa azinheira?
Precisamos é de golos
E missa futeboleira!
Se é pobre é porque tem culpa
Se é preto, tirem-lhe a tosse
Se é puta que pague a multa
E se é puto antes não fosse
Se é bicha, jaula com ela
Se é bicho, atira a matar
Se é jovem não lhe dês trela
Se é cota não tem lugar
Se é doente já não presta
Se é carente compre um cão
Se é urgente não tem pressa
Se caiu, deixa no chão.
Rebeubéu pardais ao ninho
Portugal engole sapos
No sótão, só macaquinhos
Na cave, gatos-sapatos
Nem tanto ao mar
Nem tanto à terra
A noite ladra ao luar
Mas à luz do sol não ferra
Ouvir aqui: Ana Deus (voz) + Regina Guimarães (letra)
domingo, 21 de junho de 2009
Memória de Carlos Candal

É assim, sem biombos, que me apetece falar do histórico militante socialista Carlos Candal, embora saiba que o post mortem continua ser o estado mais propício ao aguçar das virtudes e do reconhecimento público e ao branquear dos defeitos da nossa humana condição.
Homem exímio a manusear o látego da ironia, flagelava e era flagelado por opositores ou declarados adversários políticos. Nos anos de brasa da revolução de Abril, o MRPP chamava-lhe o “trinca boquilhas”. E quando passou a fumar charutos, era acusado de andar sempre com o símbolo fálico a bailar-lhe na boca. Ele, por sua vez, retrucava da mesma maneira: quando Mário Soares colocou o socialismo na gaveta e promoveu alianças à direita, apelidou-o de “bailarina política”. Assim mesmo. Vicente Jorge Silva chamou-lhe “republicano bolorento” mas não ficou sem resposta: de imediato foi apodado de “revolucionário reciclado”. E há bem pouco tempo, quando Manuel Alegre começou a entoar um canto desconforme com a maioria política do momento, Candal não teve pejo em afirmar que ele estava é a precisar de “um chuto”.
Eis o desassombro, a braveza física e moral de um homem que nunca hesitou em noivar a liberdade, mesmo no tempo em que outros se compraziam em cortejar a ditadura. Em 1969 e 1973, Aveiro foi palco de dois congressos republicanos. Candal, candidato a deputado pela oposição, assumiu importante papel na organização do primeiro.
O seu “Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave”, um libelo acusatório salpicado de bairrismo contra os políticos de Lisboa que se aprestavam para tomar de assalto a sua cidade – gente que, como costumava dizer Mário Sacramento, só começou a comer ovos moles em idades muito avançadas... – causou alguma indignação e fez estremecer certas almas bem pensantes. A verdadeira pedrada no charco de uma campanha sensaborona e da política liofilizada. Numa reacção hipócrita, Guterres retirou-lhe a confiança política e alguns jornalistas tentaram crucificá-lo, não resistindo a insultar como coiotes o velho leão ferido. Torquato Sepúlveda, por exemplo, chamou-lhe “cowboy” de um “western spaghetti”. Mas Candal resistiu. Foi até Bruxelas e refez a carreira, sempre apostado em pôr um pouco mais de sal ou picante na política.
Falei com ele apenas duas vezes. Uma na própria residência em Aveiro, situada a meio da Av. Dr. Lourenço Peixinho. Tinha ido lá solicitar parte do espólio de Homem Cristo, que sua esposa, a Dra. Isabel Cerqueira, prima de Zeca Afonso, conservava. A outra foi em Oliveira de Azeméis, pouco tempo depois, e num encontro meramente fortuito. Meteu-se comigo, naquele tom mordaz e jocoso que o caracterizava, concedendo-me a liberdade de lhe dizer: o Sr. Dr. tem a curva da prosperidade um pouco mais saliente do que no dia em que o conheci. Ao que ele respondeu, com aquela peculiar voz cavernosa e sem pestanejar, fazendo jus a um certo marialvismo lusitano a que muitos o colavam: deixe lá, as primas gostam...
Mais do que um homem de partido, Candal gostava de tomar partido. Esteve praticamente sempre do lado contrário ao dos seus correlegionários que assumiam o poder. Por isso o seduzia tanto a advocacia, a guerra de palavras, a luta, a tensão permanente.
Sem tiques de vedetismo ou ambições carreiristas, o advogado de província finou-se um dia destes. Consta que mal recuperou do acidente que o acometeu, em plena campanha para as europeias, terá pedido um charuto.
Oxalá que do alto dos seus charutos nos continue a inquietar, com a mesma atitude desafiadora que sempre teve perante a vida.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Nostalgia - Coimbra, Palhaça
na varanda de uma casa da Alta,
com vista para a cidade abaixo,
parte descurada, feia e suja,
parte misteriosa,
ouvi, hoje, uma flauta de amolador.
estou quase certo de que «A Aparição» ocorreu... na Praça 8 de Maio, na Baixa:
não eram os pastores («ainda há pastores?»),
nem uma narco-alucinação ou crença chamada Virgem Maria,
nem o amolador (mas também era),
não eram as facas, as tesouras ou os canivetes a afiar (mas também eram).
era a nostalgia.
era a raridade.
era a música em fuga.
era o elogio do que está para desaparecer.
ou do que está para vir,
se quisermos.
estou em Coimbra
e recuei a uma certa Palhaça:
a Palhaça da infância,
quando e onde não sabia o que era a ganância.
quando e onde pensava que só havia ou gente boa ou gente má,
quando não sabia que, afinal, uma pessoa pode ser boa e má,
sem isso ser assim tão estranho (apenas humano).
o som desta flauta, ecoando pela cidade, tem personalidade,
tem estilo próprio,
é assim aqui,
era assim na infância,
é assim imortalizado n' «O Assobio (Canção do Avô)».
já nem sei se ainda passa por aí - Palhaça - algum amolador.
fazem falta. nem que seja para nos afiar, ou desafiar.
devia correr por aí à procura de todas as facas e tesouras guardadas em todas a gavetas frescas deste país, para as afiar...
ou... para não deixar morrer o fugaz «sonido» quase ido.
terça-feira, 16 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
Que havemos de fazer com a liberdade, ou o que há-de a liberdade fazer de nós? A liberdade política é ganho irrecusável da civilização e da cultura, fruto arduamente acumulado da experiência e da reflexão humanas. Possível, além do mais, quando à consistência da vida sócio-económica e cultural se somou a maior disposição de si mesmo, juntando-se a lógica reivindicação de participação e decisão na coisa pública.Realidade esta não isenta do estímulo e ensaio que lhe foram proporcionados pelas comunidades cristãs, dos Actos dos Apóstolos à vida “consagrada” dos mosteiros e conventos (possibilidade de ascensão social em tempos muito estratificados, maior liberdade para contrair casamento ou tomar outra opção, autoridade feminina nas instituições e iniciativas religiosas, etc.).Como pretendeu Fukuyama, a história já teria atingido o seu objectivo, ao realizar as duas grandes motivações do seu processo, sintetizado com Hegel no desejo humano - em relação ao que cada um necessita para se manter e crescer - e no reconhecimento que esperamos dos outros em relação à nossa dignidade própria. Ambos - desejo e reconhecimento - se realizariam na democracia liberal, que, sendo o termo da evolução ideológica da humanidade e a forma final do governo humano, constituiria como que o fim da história (cf. Fukuyama, F. - O fim da história e o último homem. Lisboa: Gradiva, 1992, p. 13-14). No entanto, o rescaldo do século XX, certamente um dos mais trágicos e brutais da história humana, leva-nos a considerar que a acepção política da liberdade não basta. Apesar dos indesmentíveis ganhos conseguidos neste capítulo, ainda se fica mais pelo quantitativo e formal do que pelo qualitativo e realmente novo.Aliás, a desilusão ideológica recente retraiu a liberdade para o domínio do sentimento individual, entre o devaneio e a ambição. Podemos alargar o âmbito do que escreveu Bento XVI na sua Mensagem de 1 de Janeiro passado, Dia Mundial da Paz: “A própria crise recente demonstra como a actividade financeira seja às vezes guiada por lógicas puramente auto-referenciais e desprovidas de consideração pelo bem comum a longo prazo” (Mensagem, nº 10).Não será então melhor considerar a liberdade como dinamismo intrínseco a desenvolver responsavelmente, isto é, conjugado com a liberdade dos outros e do Outro, só assim nos adequando à realidade, ou seja, à verdade? [...]Se no século XIX tentámos traduzir politicamente a liberdade, no regime constitucional e representativo; se o século XX viu sucessivas ideologias reduzirem a liberdade a “pedagogias” opostas, que deixaram em saldo o relativismo pós-moderno… - Não estaremos na altura de considerar a liberdade como dinamismo e capacitação para alcançarmos, pelo acolhimento mútuo e interactivo, um patamar de realidade em que caibamos todos e nos reconheçamos na humanidade comum – essa mesma em que nós, os crentes, confessamos a incarnação de Deus, definitivamente aquém e sempre mais além?
D. Manuel Clemente
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociaisna 5.ª Jornada da Pastoral da Cultura, Fátima, 05.06.2009
(Colaboração de HVTV)
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Resultados das Eleições Europeias
BE
40
4,15%
CDS-PP
133
13,80%
CDU-PCP-PEV
14
1,45%
MEP
11
1,14%
MMS
13
1,35%
MPT
5
0,52%
PCTP/MRPP
4
0,41%
PH
2
0,21%
PNR
0
0,00%
POUS
1
0,10%
PPM
2
0,21%
PS
92
9,54%
PPD/PSD
575
59,65%
Abstenção
1537
61,46%
63,92%
Votantes
964
38,54%
36,08%
Nulos
22
2,28%
1,17%
Brancos
50
5,19%
4,54%
Ver outros resultados em: http://sic.aeiou.pt/online/noticias/portugal2009/resultados
Salgueiro Maia, capitão de Abril (ou a homenagem que peca por tardia)
Aconteceu há vinte anos, era então Cavaco Silva primeiro-ministro de Portugal. Tal como hoje, havia um governo de maioria absoluta, que era autista e confundia autoridade com autoritarismo. Cavaco Silva desdenhava da imprensa, proclamava aos quatro ventos que não lia jornais, que nunca tinha dúvidas e que raramente se enganava. Em dia de greve geral, uma das maiores de que há memória na democracia portuguesa, atreveu-se a negar para as televisões o que era óbvio aos olhos de todos: que não tinha dado pela greve, pois logo pela manhã, ao sair de casa, tomara tranquilamente o pequeno-almoço na pastelaria do costume...Será mesmo verdade que o poder absoluto corrompe absolutamente? Se não corrompe, pelo menos cega. E o pior cego não é o que não vê, mas o que não quer ver. Cavaco recusou-se a ver a greve geral, tal como Sócrates se recusou a ver a manifestação pública de cem mil professores. O desdém e o desprezo absoluto, como se os grevistas, num caso, e os professores, no outro, não existissem. A mesma vontade deliberada de os silenciar, de os reduzir ao nada, de domesticar as consciências. Só através do voto se aperceberam, um e outro, que afinal eles existem.
Em 1989, do alto da sua maioria absoluta, Cavaco Silva recusou uma pensão a Salgueiro Maia, talvez o mais puro e lídimo capitão de Abril. O escândalo tornou-se maior quando veio a público que essa recusa coincidiu com a atribuição, pelo seu executivo, de idêntica pensão a dois inspectores da extinta PIDE. Há gestos que dizem tudo: Cavaco Silva, que talvez nunca tivesse chegado a primeiro-ministro ou a Presidente da República se não existisse democracia em Portugal, ignorou o homem que saiu do ventre de uma chaimite, para erguer o corpo em haste de coragem e de megafone em punho anunciar Abril, exigindo a rendição de Marcelo Caetano no quartel do Carmo. E pareceu ignorar, também, que a PIDE negava a liberdade e a democracia, esquecendo as palavras avisadas de Hannah Arendt: todos os despotismos se apoiam na polícia secreta.
Ao contrário de tanta gente que a polícia política perseguiu e prendeu por cometer o crime de querer viver em liberdade, os torcionários tiveram rédea livre para viver num qualquer recanto perdido da democracia. Alguns foram mesmo agraciados com pensões pelo regime a que se opuseram ferozmente. Um dos dois a quem o executivo de Cavaco Silva não recusou a pensão por “serviços relevante prestados ao país” esteve entrincheirado na Rua António Maria Cardoso, a sede da polícia política, e terá estado envolvido nos disparos contra os manifestantes que causaram os primeiros mortos da revolução. Estranha dualidade de critérios...
Entretanto, porque morrem cedo aqueles que os deuses amam, Salgueiro Maia viria a falecer em 3 de Abril de 1992. Choraram-no, então, os que nunca o mereceram. Os que sempre lhe recusaram promoções. Os que o arrumaram na prateleira da rotina militar. Os que consentiram e o condenaram ao desterro açoriano. Os que têm sempre à mão o lenço nacional para enxugar as lagrimetas de ocasião.
Cavaco Silva tenta agora reparar a gritante injustiça. Deposita hoje, 10 de Junho de 2009, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, uma coroa de flores junto à estátua do capitão de Abril. Mas o Presidente da República perdeu a oportunidade soberana de homenagear, no tempo certo, aquele que em vida sofreu a ingratidão de ver recusada a mesma pensão, pelo regime democrático que ajudou a construir, atribuída a dois algozes desse mesmo regime.
Conseguirá, com esse gesto, limpar a nódoa que ainda mancha o sudário de generosidade e coragem que envolve o capitão Salgueiro Maia? A democracia aprende-se, aperfeiçoa-se e exercita-se. Cavaco Silva, como toda a gente, terá evoluído, não será a mesma pessoa de há vinte anos, já reconhece que também se engana e que tem dúvidas.
Por mim, acredito que o seu gesto, embora tardio, é sincero. Não é fácil estar frente a frente com o passado, olhos nos olhos, quando não se tem a consciência tranquila. Saber assumir os erros só revela a grandeza do gesto. Por isso eu, que tanto me indignei com Cavaco Silva há vinte anos, estou disposto a perdoar-lhe. Escrevi este texto porque não esqueço. Porque sigo a divisa: perdoa, mas não esqueças.
«Direita ganha, mas Europa perde»
2. Houve, naturalmente, governos conservadores penalizados e partidos sociais-democratas na oposição premiados. Os sociais-democratas suecos e dinamarqueses ganharam as eleições. São partidos de centro-esquerda tradicionalmente fortes. O PASOK grego ficou muito à frente dos conservadores da Nova Democracia que governam desde 2007. Mas isso não impede a segunda conclusão: que a crise foi mais adversa para os partidos de centro-esquerda no poder. Foi essa a regra em Londres, Madrid ou Lisboa, mas também em Budapeste ou em Viena. Nem todas as derrotas têm a mesma dimensão. No Reino Unido, os resultados de Gordon Brown arriscam-se a ser o prego que faltava para o seu enterro político. Mas, se chegou a haver a convicção de que esta crise, ao pôr fim ao domínio da ideologia liberal, seria uma oportunidade para o centro-esquerda, os resultados destas estas eleições não o demonstraram.Parecem revelar outra coisa: que o medo e a incerteza podem ser mais facilmente aproveitados pelo discurso anti-imigrantes, anti-Europa e anti-sistema. Na Holanda, na Áustria, em Budapeste nas suas versões mais xenófobas e radicais. Noutros países em versões mais tradicionais.
3. A Europa é também um grande derrotado das eleições europeias. Não apenas por ter estado em boa medida ausente das campanhas eleitorais, mas porque uma maioria de eleitores decidiu não ir votar. Desde 1979, nas primeiras eleições directas para o PE (quando a Europa era apenas a Nove), que os eleitores se vêm afastando cada vez mais das urnas, de cada vez que são chamados a elegê-lo. Desta vez, a abstenção parece ter atingido um valor recorde.Na França ou em Portugal esse valor foi mesmo o pior de sempre. A média europeia de afluência às urnas não ultrapassa os 40 por cento. O desinteresse (ou o protesto) parece ser ainda maior nos países da Europa Central e de Leste, que entraram em 2004, que foram duramente afectados pela crise e cujos sistemas políticos são mais frágeis e mais voláteis. Na leitura dos números, não é fácil distinguir entre o que resultou da decepção em relação à Europa e o que representa a desilusão bastante generalizada com as elites políticas nacionais. O receio do futuro, a percepção de que Bruxelas teve um fraco papel na reacção à crise, a ausência de um discurso europeu que faça sentido para os tempos de hoje, em que tudo está em mudança, podem ajudar a explicar muita coisa. Não inibem os líderes europeus de tirar também dos resultados nacionais algumas conclusões europeias».
[Artigo de opinião de Teresa de Sousa, in Público]
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Campanha Lateral
Tinha flores no regaço para lá levar,
E uma leve esperança de avistar uma democratix fénix.
«As previsões do Banco das Urnas de Portugal dizem que não acaba tão cedo», cantam, em uníssono, os jornalistas.
O que é uma campanha eleitoral, senão uma apanha de postos?
Tudo a postos? A maratona vai prosseguir:
«toma, toma, leva, leva, apanha, apanha»?
Beijo aqui, puxão de cabelo e abraço ali.
A Europa? Mal a ouvi.
Lá ao fundo, um acampamento junto às urnas.
São os carreiristas partidaristas devotos.
Para a contagem de votos.
Gritam:
«São números, senhores, sois números...»
(Oops, fugiu-lhes, à boca das urnas, a boca para a verdade)
quarta-feira, 3 de junho de 2009
terça-feira, 2 de junho de 2009
Movimento Pela Igualdade
http://www.petitiononline.com/mpi/petition.html
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Criança
Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros (1893-1970)
(Colaboração de HVTV)
sexta-feira, 29 de maio de 2009
MOUVA mostra 22 Fotografias
Na sequência de um repto lançado na primeira edição do MOUVA, o Coreto, coração da Praça de São Pedro, vai dar guarida, a partir de domingo, a uma mostra-viagem de fotografias, subordinada ao tema das Praças. Lado a lado, poderá ver praças portuguesas ou além-fronteiras, praças rústicas ou urbanas (até 28 de Junho, aos fins-de-semana). São 22 fotografias de vários autores que quiseram partilhar os seus olhares.Mais informações clique aqui
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Dúvidas à distância de um clic
CDU - Coligação Democrática Unitária PCP-PEV
Partido Social Democrata (PPD/PSD)
Partido da terra (MPT)
Partido Popular Monárquico (PPM)
Movimento Esperança Portugal (MEP)
Partido Socialista (PS)
Partido Popular (CDS/PP)
Partido Nacional Renovador (P.N.R.)
Movimento Mérito e Sociedade (MMS)
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCPT/MRPP)
Partido Operário de Unidade Socialista (POUS)
Partido Humanista (P.H.)
Nota: Ordem dos partidos igual à do boletim de voto.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Votar ou não votar nas europeias

Para responder de modo afirmativo à questão é necessário pressupor a boa-fé dos políticos. E isto que parece óbvio deixa de o ser se levarmos a sério a desconfiança que quotidianamente manifestamos e o descrédito a que a classe política chegou. E, contudo, sem essa confiança básica de que o político eleito servirá o Bem Comum que sentido faz votar? Um voto que se baseasse apenas no dever cívico de votar, no hábito ou na fidelidade acrítica a uma cor partidária, sem pressupor que o político está lá para servir, seria como passar um cheque em branco - quem nos garantiria que o receptor não é criminoso? É certo que todo o voto acarreta risco, mas, em princípio, o conhecimento prévio do candidato dá algumas garantias. Mas mesmo que as não tenha em absoluto e já não acredite no sistema partidário, talvez o eleitor vote porque acredita, apesar de tudo, no regime democrático. Ora, isto conduzir-nos-ia a uma pergunta lancinante: poderemos confiar no regime democrático sem confiar nos políticos que nos representam?
Se vamos votar, acreditamos portanto nos políticos. Mas - e quando são os próprios políticos que alinham no discurso da desconfiança em relação aos políticos e à política? Pois não diz um cartaz - o do CDS/PP: «Não andamos a brincar aos políticos»? Ora, segundo esse cartaz, podem eles não andar: mas alguém anda! E não diz outro cartaz - o do PSD: «As famílias portuguesas acima das famílias partidárias»? Mas então há quem faça o contrário: pois se esse é o traço distintivo desse partido, se essa é uma razão válida para que o escolhamos... Escolhi os cartazes destes partidos; podia ter escolhido o de outros e ter feito reflexões semelhantes. O dilema resolve-se, no entanto, se acreditarmos pelo menos na bondade das intenções dos políticos em quem votamos.
Mas ainda que creiamos na bondade das intenções destes ou daqueles políticos, estas eleições são para a Europa e portanto é legítimo perguntar qual o verdadeiro poder político dos nossos deputados mo Parlamento Europeu? Podem ir, de facto, contra a sua família política na Europa e conseguir alguma coisa? Alguém acredita que as boas intenções conseguem enguiçar a máquina diabólica em funcionamento dos países mais poderosos? Pode-se alegar que, acoplada à rectidão das intenções vem a capacidade negocial, a estratégia (casamento estranho, convenhamos…). O deputado português poderia, então, vender a alma ao Diabo, mas conseguiria, no fim, «o menos mau dos resultados». «Em nome do interesse nacional», garante Paulo Rangel que assina por baixo. E se nenhum dos papéis que lhe for parar às mãos for do interesse nacional? Assinará? E a sua família política, assinará? Poderá fazer propostas, o deputado, é certo. E se a sua proposta for chumbada?... É caso para perguntar: para quando uma política diferente da propaganda e da querela? Do outro lado do atlântico parece que alguém se decidiu a mudar alguma coisa, por cá parece que os políticos ainda não aprenderam…
Resumindo: votar hoje é mais do que nunca um acto de fé. Fé na lei das probabilidades, mais do que nos políticos, talvez. E não votar ou votar nulo? Seria esse gesto lido e reconhecido como um voto de protesto? Um aviso aos políticos de que deverão mudar profundamente a sua atitude e as suas práticas?
Paulo Carvalho
Uma morte e uma vida
Na semana que morre João Bernard da Costa o realizador João Salaviza com "Arena" ganha a Palma de Ouro. O nosso País é feito destes contrastes.
Gostos destas surpresas logo pela manhã
Nada que já não tenhamos visto mas fica o apontamento. Bons sorrisos.
domingo, 24 de maio de 2009
Campos de trigo para sempre
Paulo, conhecerás tão bem como eu esta fórmula de Ricoeur, que assenta numa suspeição sistemática dos discursos, aos quais é negada a diáfana beleza do seu manto de racionalidade: o que dizes não é o que pareces dizer, nem sequer o que julgas dizer. E também saberás que nas relações entre o autor e o texto, este último, como assinala Arnaldo Saraiva, repete frequentemente o sofisma do tebano que afirmou: todos os tebanos são mentirosos.Pois bem: a inegável qualidade e a beleza desarmante de Um campo onde cresça trigo, obrigam a que te confesse o seguinte: o meu modesto comentário ao texto Morrer em nome da pátria – o que é isso?, foi como que um gesto congelado – diria fingido e mentiroso, embora verdadeiro na sua manifestação – que pouco tem a ver com o que deveras sinto e penso sobre noções como pátria, centro e periferia, guerra e violência. As interrogações que coloquei nesse comentário foram a melhor forma que encontrei para assumir o papel de advogado do diabo.
O teu texto indiciava mais, e eu queria mais. Sabendo-te pesquisador de águas profundas, ao contrário de tantos outros que andam à tona da água para mais facilmente poderem ser iluminados pelos holofotes da publicidade, restava-me lançar o anzol com isco bem nutrido e esperar que o tal pesquisador, um tanto inadvertido e curioso, se dignasse vir à superfície para provar da guloseima. E foi o que aconteceu, Paulo. Brindaste-nos com Um campo onde cresça trigo, para mim o melhor que veio de ti, do muito bom e quase sempre denso que de ti tenho lido.
Vou ainda confessar outras coisas: a primeira leitura do texto foi apressada, em diagonal, por força das circunstâncias do momento. Mas ao lê-lo qualquer coisa cintilou dentro de mim. O primeiro gesto foi imprimi-lo, como se tivesse receio de perder algo de muito raro, burilado até atingir a limpidez do cristal. A seguir, fiquei um tanto aturdido e até embasbacado, por aludires ao facto do texto poder ser entendido como uma co-resposta, como que escrito a duas mãos. Não, Paulo, a notável qualidade do texto cabe-te por inteiro, o seu a seu dono. A seguir, pensei para com os meus botões: um texto com tanta beleza interior, tão carregado de sentido (s) e de significado (s), que de algum modo me é dirigido embora o seja também a todo a gente, tem de encontrar algum eco. Mas dizer o quê, quando tudo foi já tão bem dito.? Acrescentar o quê? E a primeira reacção foi de incapacidade para esboçar qualquer comentário, o que me levou a escrever ao lado do texto impresso: o Paulo e o Tiago – sim, também apreciei o comentário do Tiago – estão quase a atingir o Nirvana...
Eis-me, pois, na difícil missão de arriscar um comentário, meras impressões de leitura de um texto notável, que subscrevo por inteiro e não considero – longe disso – “da ordem do delírio místico” ou do “delírio utópico”. Substituiria delírio por utopia, naquele nobre sentido do que sabemos não ser realizável hoje mas possível amanhã, mesmo que se trate de um amanhã longínquo. Mesmo sabendo que a utopia parece naufragar nestes anos de chumbo em que os sonhos da humanidade são amortalhados. Porque o que importa, afinal, é não o resultado finalista, a teleologia, mas a capacidade de nos pormos a caminho para qualquer coisa, como certeiramente referes. Se o ousarmos fazer, sem calculismos estreitos e oportunistas, a humanidade só terá a ganhar com isso.

Um campo onde cresça o trigo é, antes de mais, um texto que recusa enfileirar naquilo que é a marca mais profunda do homem contemporâneo: a fuga diante do acto de pensar. É uma homenagem de fidelidade ao homem, mas também uma reacção contra as tendências que o diminuem ou amesquinham. É um hino em louvor do questionamento, do pensar com (e em) liberdade, com rigor e sentido crítico. Desvenda-nos, também, ao aludir à nossa condição de “absolutamente sós”, como é possível ser fecunda a experiência do silêncio em sociedades onde a comunicação nos é cada vez mais imposta.
Também eu, Paulo, acredito no que está para além dos factos e no seu carácter provisório. Em história, há muito que as análises positivistas caíram em desuso. Nos dias que correm, as estruturas de pensamento e significado simbólico, por exemplo, são parte integrante de tudo o que conhecemos e designamos por história. Hoje reivindica-se uma abordagem mais diversificada desta disciplina. Os recursos à literatura, à teoria crítica, à antropologia ou à sociologia, por exemplo, tornam os historiadores mais inovadores e conscientes dos seus próprios postulados. Isto, aliás, nada tem de novo. Já no longínquo ano de 1961 E. H. Carr declarou que “quanto mais sociológica a história se torna, e quanto mais histórica a sociologia se torna, tanto melhor para ambas”. Tal como a filosofia, a história também questiona e tem dúvidas: nunca foi fácil e muito menos tem gerado consenso definir o que seja o poder ou as instituições, por exemplo. Sondar o que está para lá dos factos requer aquilo que o teu texto evidencia: uma leitura em profundidade, densa, que recuse o sentido comum e subverta uma leitura calmante desses factos. Assim se chega a uma diferente gramática dos sentimentos. Trata-se, como diz A. M. Hespanha, de arredar o sentido superficial e dar lugar a camadas sucessivas de sentidos subjacentes, de “recuperar a estranheza, não a familiaridade do que é dito”.
Quanto ao pacifismo de Gandhi, apesar das objecções (intencionais) que lhe coloquei, continuo a entendê-lo como um caminho de libertação, como via de uma reconciliação universal a contrapor ao actual desconcerto do mundo. Uma porta aberta para a humanidade se reconciliar consigo própria e sair da loucura. A não-violência completa era por ele definida como “a ausência total de má fé para com tudo o que existe”. Ora isto só pode significar uma espécie de triunfo final da verdade e do amor a partir da não-violência activa. Gandhi fala na força misteriosa de um ideal defendido até ao “martírio”, caldeado “no fogo do sofrimento sem ódio e malícia”. Coloca o amor e a verdade no lugar dos ódios e das guerras. É esta a força magnetizante da sua mensagem. A não-violência está longe de significar inacção ou passividade perante as diferentes formas de dominação e opressão. É isso que nos interpela e desafia. Difícil é seguir-lhe os ensinamentos: “o que paga o mal com o bem é como se tivesse conquistado o mundo”. Terá sido a palavra de verdade que ele incarnou, enquanto guia espiritual, assim como o seu incitamento à desobediência civil de milhões de indianos, a convencer o império britânico. A isto chama-se fé no homem, energia moral, dinamismo espiritual, coragem física do caminheiro, coragem na palavra e na acção. Saber apelar à melhor parte de nós mesmos, cindindo o que em nós existe de “anjo” e de “besta”, como dizia Pascal. Não é fácil trilhar estes caminhos e a experiência aí está para o provar: uma vez independente, logo a Índia se dividiu em dois países (União Indiana e Paquistão) que de imediato entraram em guerra pela disputa do estreito de Caxemira. E sabe-se como persistem os preconceitos materializados em castas, ou uma riqueza ostensiva a contrastar com a mais negra miséria. E também é certo, Paulo, quando falas de uma dignidade que os indianos teriam de reconquistar por si e não contra os ingleses, que tal se verificou: não houve violência para com os colonizadores, salvo uma ou outra excepção; mas infelizmente ela foi exercida entre os próprios indianos, por causa das divisões religiosas e étnicas, o que prova quão difícil é interiorizar no tempo curto tão nobres ideais. Apesar de os principais dirigentes indianos se reclamarem da herança espiritual de Gandhi isso não os tem inibido de aumentar de forma continuada o poderio militar e nuclear do país. Só o alastrar duma santidade colectiva semelhante à de Gandhi teria podido evitar estes paradoxos cometidos pelos que se reclamam da sua doutrina.

Num mundo onde a violência irrompe todos os dias com novos rostos, como não desejar com ardor o pacifismo e a não-violência? Como não resistir à destruição do ambiente e ao nuclear? Gandhi mostrou-nos, através do seu exemplo, as capacidades ignoradas dos seres humanos para lutar contra as grilhetas da submissão e compele-nos a meditar nas diversas possibilidades oferecidas à imaginação e à potência dos movimentos ecologistas e pacifistas, ou de consumidores, entre outros. Canalizar as nossas potências contra o poder das estruturas transnacionais parece ser a esperança que nos resta. Lutar sem violência e sem ódio parece ser o desafio mais importante para a humanidade actual. Não há guerras justas. Se todas elas se alimentam do ódio ao outro, se todas geram violência assassina colectiva, jamais podem converter-se em acto meritório. Como bem disseste, Paulo, ninguém sai vencedor duma guerra. Todos são vencidos, com mais ou menos aleijões no corpo e na alma. Em tempo de guerra as despesas militares devoram os orçamentos dos Estados. Só um mundo sem guerra e sem preparativos de guerra assegura a paz e por arrastamento uma vida livre e feliz.
A busca de um novo paradigma passa por repensarmos as categorias políticas que nos governam, num tempo em que as próprias bases em que assenta a democracia assumem cada vez mais preocupantes tiques totalitários. Há excesso de ideologia nos sistemas partidários, entendida como sistema de ideias e de sentimentos, duplo instrumento de representação e de transformação que visa legitimar a pretensão partidária de conduzir a formação social. Ora, como lembra Pierre Bourdieu, o campo político apresenta um grau cada vez maior de fechamento, segregação ou isolamento face ao conjunto da sociedade. Há uma casta de profissionais da persuasão ideológica, que acumula relações de poder, de força e de dominância, a entreter com o debate-espectáculo a imensa legião de profanos que cada vez mais deles se distancia embora, na altura certa, os continue a legitimar com o seu voto.
Compreender as coisas para as transformar, eis do que se trata. Criar uma comunidade esclarecida, com sentido crítico e sentimento de grupo, onde seja possível articular as diferenças, eis uma possível alternativa ao marasmo reinante. Será “a comunidade que vem” a utopia em que precisamos de acreditar? Mesmo reconhecendo a falência da mais planetária utopia do nosso tempo (a redenção marxista) e os estragos que ela provocou no seu sentido heurístico e no seu valor de uso, acredito, como tu, que as utopias estão sempre a acontecer. E só porque umas vezes são invisíveis e outras afloram em “pequenas irrupções”, isso não pode levar-nos a esmorecer, ou à tentação do desânimo: convém lembrar que os grandes incêndios resultam quase sempre de combustões lentas e subterrâneas...
Quanto ao inferno que resulta do facto de estarmos juntos neste mundo, acrescentaria à receita de Italo Calvino para o evitar (reconhecer, no meio dele, quem e o que não é inferno) a fórmula não menos sábia de Eduardo Lourenço: não prometer paraísos, que são a mais segura porta para os infernos que nunca deixou de haver.
Paulo: se não for muito atrevimento, deixa-me partilhar contigo, e já agora com o Tiago, que parece afinar pelo mesmo diapasão, a caminhada rumo à “comunidade que vem”. É que, reparo agora, também sinto que estou quase a atingir o Nirvana...