sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eleições - Outras vozes

PS, BE, CDU, PSD e CDS dispensam apresentações.

Ficam, abaixo, resumidas algumas das ideias dos outros partidos/coligações concorrentes às eleições legislativas de domingo, regra geral, menosprezados pelos media.


Dez à procura de um deputado

terça-feira, 22 de setembro de 2009

MOUVA 27/9: «Passem Por Nós no Coreto»

Mercado MOUVA encerra ciclo de 6 meses este domingo

Chega ao fim, este domingo, a primeira temporada da série MOUVA (Mercado de Objectos Usados, Víveres e Artesanato), um evento que tem assentado arraiais, no último domingo de cada mês, desde Abril, no Largo de São Pedro, na Palhaça. No encerramento, três momentos musicais, jogos, massagens, animação de rua, ioga do riso e espaço para crianças alinham no menu cultural e recreativo. Aos curiosos, a organização, os artistas e os vendedores apelam: «Passem por Nós no Coreto», ou participem, nas vendas ou artisticamente.

Era uma vez um «mercado-mais-do-que-mercado», aberto ao comércio sustentável, ao lazer, à saúde e à cultura, criado com o intuito de dinamizar uma praça, de reunir pessoas de diferentes idades e interesses, e deixar algumas marcas através das artes (música, poesia, fotografia, cinema, etc.). Eis a história do MOUVA, na Palhaça. Do artesanato urbano a tradicional, filatelia e numismática, passando por produtos agrícolas frescos, brinquedos, quinquilharias, antiguidades, bijuteria, limonada, doces, pão, música, filmes, roupa - de tudo um pouco tem passado pelo certame.

As montras de venda e as mostras de artes mantêm o espírito dos mercados anteriores, mas há apostas novas a reter: Ioga do Riso; música swing, numa performance interactiva comandada pelo saxofonista Henrique Portovedo; fado ligeiro, com António Fardilha e Fernando Bardot; um espaço-projecto de pinturas faciais chamado Pimpidu; uma performance centrada no corpo («Humanimalidades»); e um Espaço Encantado, um local de arte e massagens. Repescagens, também as há, para quem não teve oportunidade de assistir às suas actuações: BD (duo local de violino e guitarra) e os Palhatrapos («uma dupla de palhaços-músicos, divertidos e coloridos, o menino nos sopros e a menina na percussão»).

Em dia de eleições legislativas, a organização do MOUVA propõe um referendo sobre a continuidade deste evento. O MOUVA é de quem por ele/ali se move. Apareça. Entrada livre. Entre as 10h e as 17h, no Coreto de S. Pedro.

domingo, 6 de setembro de 2009

Curiosidades de uma viagem a Malta


1. Ir de férias é deixar para trás a floresta cerrada dos dias iguais e arrastados do trabalho, a rotina que cerca e encharca até aos ossos. Partir significa estar mais perto do desejo, acalentado ao longo do ano, de passar momentos diferentes, menos monótonos e repetitivos. De certo modo, as viagens reconduzem-nos a um tempo há muito perdido: o da leveza dos dias sem horários para cumprir, sem pressas ou compromissos. Tempo de inteira liberdade, de regresso ao castelo encantado da infância, onde habita a matéria de que são feitos os sonhos e os segredos mais temerários. Ao viajar soltamos o pé do lodo da vida. Iludimos o labirinto dos lugares habituais. Vamos ao encontro de um outro para quem também somos o outro.

2. Sem que nada o fizesse prever, este ano aconteceu-me ir a Malta. Da ilha – dito de modo mais correcto: do arquipélago encravado entre a Europa e a África, no Mediterrâneo central – conhecia vagamente a situação geográfica e ouvira falar, também de forma vaga, dos célebres Cavaleiros de Malta. Associava até o nome do país ao título de um livro de Dashiell Hammett, O Falcão de Malta, um policial famoso inspirado nos cavaleiros que pagavam um imposto anual de um falcão vivo ao rei de Espanha. Era tudo, e esse tudo era tão pouco, o que sabia de Malta...



3. Regressa-se sempre, naturalmente, mais enriquecido. No bornal dos conhecimentos históricos guardo notas sobre algumas civilizações que ocuparam as ilhas desde tempos imemoriais: cartagineses e romanos, bizantinos e muçulmanos, normandos e espanhóis, franceses e britânicos (as 8 pontas da cruz que é símbolo dos Cavaleiros de Malta correspondem a outras tantas línguas originais da Ordem); sobre estes cavaleiros, aprendi que construíram Valetta, palácios e fortificações, e que derrotaram os turcos que os cercaram no século XVI, desferindo um golpe fatal nas pretensões muçulmanas no mediterrâneo central.


Como curiosidade, e a atestar a presença portuguesa nos quatro cantos do mundo, encontrei, com alguma emoção, uma placa comemorativa afixada num aqueduto em La Valetta onde pode ler-se: “Em memória do almirante Marquês de Niza e dos marinheiros portugueses sob o seu comando, que morreram combatendo lado a lado com os malteses durante a insurreição popular de 2 de Setembro de 1798 contra o domínio francês”.


De facto, Napoleão conquistara Malta em 1798. À semelhança do que aconteceu em Portugal durante as invasões francesas, tudo o que era valioso foi pilhado pelos ocupantes. Os malteses revoltaram-se e pediram ajuda aos britânicos. Os portugueses, embora em menor número, também deram o seu contributo para derrotar os franceses.

4. Visitar palácios e templos, igrejas e catedrais; povoações piscatórias com seus barcos tradicionais de cores vivas, a balouçar na baía azul e um mercado diário que lembra muito a feira da Palhaça, pois para lá do peixe fresco vende-se todo o tipo de roupas, produtos hortícolas, CDs, lembranças e óculos de sol, entre outras bugigangas; saborear a gastronomia local; aceder às várias ilhas em excursões de barco ou através do ferry; conhecer praias de água cristalina, que convidam ao mergulho retemperador quando o sol dardeja raios inclementes que nos mordem a pele; apreciar a solenidade de penhascos e baías, falésias e enseadas, zonas naturais de cortar a respiração, particularmente belas ao entardecer; sentir a terra avermelhada a contrastar com o verde dos pomares; contactar com a música e o folclore da região; dar uma saltada à aldeia do Popeye, recriada para o filme deste herói lendário que faz as delícias da criançada. Tudo isto nos oferece Malta, miscelânia de lazer e cultura que só pode purificar o corpo e o espírito.




5. Comino, a meio caminho entre Malta e Gozo, é a ilha mais pequena do arquipélago. Para mim, também a mais paradisíaca, porque desabitada e intacta, com a sua Lagoa Azul e os aromas intensos a cominho (que lhe dá o nome) e outras ervas aromáticas.



As águas oscilam entre um azul-turquesa e um verde-esmeralda que inebriam os sentidos. E depois, a luminosidade, a claridade azul difícil de descrever, os aromas adocicados suspensos no ar. Dir-se-ia que os deuses andaram por aqui, que deixaram a sua marca neste lugar único e desde sempre pressentido. Espaço mágico e íntimo, ainda não manchado pela intervenção humana, onde nos sentimos felizes e reconciliados com a natureza e por algum tempo lavados das feridas da existência.




6. Se nas viagens se procura sempre algum exotismo, em Malta ele surge-nos diante dos olhos nos autocarros que datam seguramente de há meio século. São lentos, de um amarelo torrado com uma risca laranja. Conduz-se pela esquerda e os preços são bastante convidativos. Em todos eles encontramos iconografia religiosa, complementada com dizeres do tipo: In God we believe/We believe in God. Se não tocamos à campainha (puxando um fio que percorre o interior do tejadilho) o autocarro não pára e só podemos sair na estação seguinte. O parque automóvel é degradado, com carros (normalmente italianos) que já não circulam em países europeus mais desenvolvidos e ainda assim em mau estado de conservação: espelhos retrovisores partidos ou inexistentes, latas amolgadas ou riscadas.



7. Finalmente, e porque não há bela sem senão, nas águas cristalinas de Malta vivem e ensaiam graciosos passos de dança as temíveis medusas (jellyfish, peixe gelatina), conhecidas entre nós por alforrecas. Picam (ou queimam?) que se farta e há avisos a anunciar a sua presença por tudo quanto é sítio. Digamos que sobre o paraíso se abateu, pronta a retirar-lhe alguma beleza e encantamento, a urticante maldição das alforrecas.



8. Todos os sítios de Malta são já e só uma lembrança do tempo em que, andando muito a pé, mal se dava pelo cansaço. Dias em que parecia andarmos nas nuvens, portanto sem colocar os pés no chão.


Recordar agora esses dias é regressar a uma alegria que não se extingue, porque os grandes dias são aqueles em que o tempo passa sem darmos conta disso e nos parecem mais pequenos. Alegria breve – mas duradoura.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MOUVA #5 – Como fechar «Aquele Querido Mês de Agosto» na Palhaça

Este domingo, dia 30, a Praça de São Pedro, na Palhaça, vai ser palco da última edição de Verão do MOUVA (Mercado de Objectos Usados, Víveres e Artesanato). Agosto já inspirou filmes e músicas populares e o MOUVA também não lhe resiste. Quer fazer deste fim do mês, numa praça viva, uma futura viva e querida memória, mas, para isso, precisa da sua colaboração e dinamismo.

Comércio variado, palhaços-músicos, obras criativas em exposição ao ar livre, lazer à sombra, idiomas cruzados, música «com todos», uma contadora de histórias infantis e pintores faciais vão espalhar-se pelo recinto. O resto do programa do MOUVA depende de si, da sua espontaneidade, do seu contributo cívico e artístico. «Faça o seu prório MOUVA», eis o mote. O desafio-extra passa por «fazer o MOUVA dos outros diferente», com animação musical, truques de magia ou outros talentos.

A organização do certame diz estar «consciente de que Agosto convida naturalmente à praia, um concorrente quase desleal de um evento de pequena-média dimensão, longe dessa tentadora praia». Mesmo assim, garante não cruzar os braços e promete «insistir em solidificar, apesar dos limites, o projecto, que é um compromisso com a vila e com quem por lá já passou, que se pretende mais duradouro e firme do que um castelo de areia».

Entre as 10h da manhã e o meio da tarde, terá a oportunidade de se cruzar, várias vezes, com os Palhatrapos, uma dupla de sopros e percussão, que apostará num «repertório essencialmente medieval e tradicional». Poderá ainda deixar a sua marca criativa num poema colectivo a estender na corda ao final do dia. Pela manhã, uma actividade com crianças, mas para todas as idades centrar-se-á no que é «possível inventar/fazer/criar numa praça, com crianças e com a criança que ainda habita os adultos». Nas colunas, haverá música a percorrer os quatros cantos do mundo.

O MOUVA continuará atento e disponível para abraçar novas iniciativas ao longo do Outono, depois de deixar a praça temporariamente no último domingo de Setembro. Mantenha-se inteirado com o blog oficial (http://mouvapalhaca.blogspot.com/).

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Uma viagem com barba


Este vídeo relata a viagem de Christoph Rehage que percorreu 4,646 Km a pé na China durante um ano (9 Nov 2007 a 13 Nov 2008). Fica aqui a surpresa de um vídeo que ele produziu.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Partido Nulo - A opção de dizer «Nós, eleitores, existimos»?




Há quem desvalorize a hipocondria, chamando-lhe «mania», mas é bem possível que seja um sinal de que algo vai mal com quem diz padecer das doenças x, y, b, c, d, k e z.

Há quem desvalorize - os partidos proeminentes, por exemplo - as abstenções gordas, os votos em branco ou nulos, mas o que é certo é que a democracia representativa e os partidos com assento na AR cada vez menos representam os cidadãos. Basta perguntar quantos novos militantes há nos partidos eleitos e ler as percentagens, comparando a abstenção com o somatório dos votos em partidos. Os ditos «grandes partidos» são minoritários, logo, a noção de representatividade é falaciosa, falsa.

Que este Partido Nulo sirva, pelo menos, para os cidadãos, e os partidos reflectirem sobre o que têm feito - não mais do que guerras interpartidárias e algumas leis, muitas vezes discutidas a correr - e o sobre o que querem fazer em comum pelo Bem Comum (se realmente ainda é esse o objectivo-mor dos partidos - duvido).

O próprio sistema - criado pelos media e pelos partidos mais sonantes - abafa a existência de partidos não representados na AR, ignorando-os, não lhes dando voz. O que ouvimos/conhecemos sobre os movimentos cívicos ou mesmo sobre o MEP e o MMS, supostamente novos partidos?

Se o Partido Nulo existe e tem aderentes é porque não é uma mera brincadeira do Rui Zink ou uma rábula dos Gato Fedorento. É porque existe uma história, uma tendência eleitoral (que nos leva a questionar a falência ou fragilidade de algumas instituições democráticas e o próprio curso do Sufrágio Universal).


Segue, abaixo, um excerto do manifesto do Partido Nulo (clicando sobre este, poderão ter acesso ao texto na íntegra):

Há uma crise grave de representatividade dos orgãos de soberania portugueses.

O governo ainda em funções foi mandatado para governar com maioria absoluta durante quatro anos por 121 deputados da Assembleia da República que colheram 2 milhões e meio de votos, ou seja menos de 30% do total dos votantes inscritos.

Cada um dos 22 eurodeputados portugueses foi eleito por não mais de 140 mil votantes.

A maioria dos representantes autárquicos portugueses representa não mais de 30% do total de eleitores.

Caso extremo de falta de representatividade democrática, o presidente de Câmara Municipal de Lisboa foi eleito em 2007 por um em cada dez eleitores.

A abstenção tem-se tornado assim num conveniente pretexto para governações minoritárias tendencialmente alheadas dos interesses dos cidadãos.

Fotos da Festa

A pedido do Luís Cristóvão, seguem mais fotografias da tradicionalmente chamada «Festa da Palhaça» (cortesia e autoria: Andreia Tavares):

















sábado, 15 de agosto de 2009

71ª Volta A Portugal Em Bicicleta

Perto da meta final, o evento em duas rodas passa, hoje, aqui ao lado:





«Na manhã de sábado haverá muita festa e animação nos Paços do Concelho, com a partida marcada para as 13 horas.

Este é um fenómeno desportivo mediático que cativa o país de norte a sul, movimentando um público muito vasto que segue o pelotão em todas as etapas.

Para aproveitar o tempo passado em Oliveira do Bairro, os corredores, organizadores e público em geral, terão o prazer de provar as iguarias desta região, considerada muito rica a nível gastronómico»


(Nota à imprensa da CM de Oliveira do Bairro)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Foi há 25 anos ... Carlos Lopes


Foi há 25 anos. Foi a primeira directa que fiz na vida. Tinha então 7 anos e para mim ser noite em Portugal e dia em Los Angeles era esquisito. Passádos estes anos ficam dois episódios: o atropelamento do Carlos, dias antes da partida para EUA, e uma frase de Mário Soares.À pergunta do marotonista "Se eu ganhar uma medalha, não tenho direito a um churascozinho de cabrito, aqui no vosso quintal?", referindo-se aos jardins de S. Bento ao qual o primerio-ministro responde: "Você tem uma lata do caneco, mas olhe... traga lá a medalha que não é um cabrito, é um boi".
Ficou na memória o número 723 e a primeira medalha de ouro olímpica.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

Há festa na Aldeia

A festa em honra de S. Sebastião e Nª Sª da Memória está à porta.
Sexta-feira, dia 7
Tem início marcado já para o próximo dia 7 de Agosto, sexta-feira, com a celebração de uma Procissão de Velas, com início às 21h 30m, na Igreja de Vila Nova e termo na Igreja Matriz.
Sábado, dia 8
Arruada, durante o dia
À noite - Festa dos Anos 70/80. A comissão convida todos a caracterizarem-se à época.
Domingo, dia 9
10h 30m - Celebração de Missa Solene seguida de Procissão de Andores, da Igreja Matriz para a Igreja de Vila Nova, seguindo o percurso experimentado no ano transacto e com a presença da Banda Vaguense e da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Estarreja.
17h 00m - Há vacada na Palhaça
Noite de folclore, a partir das 22h, com o Grupo Folclórico S. Pedro da Palhaça e os Ranchos da Mamarrosa e de Verba (Nariz).
Segunda-feira, dia 10
Há variedades à tarde
Arraial nocturno com o grupo Mega.
Terça-feira, dia 11
Tarde desportiva, podendo sempre participar num dos jogos solteiros casados
Arraial nocturno com Quim Barreiros.
Quarta-feira, dia 12
Arraial nocturno com o grupo Tribo.
Quinta-feira, dia 13
Arraial nocturno com o grupo Fax.
Sexta-feira, dia 14
Arraial nocturno com o grupo TV5.

sábado, 8 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quando se «rasgam» os direitos humanos...

Só esta semana, lá fora:


Coreia do Norte: Após um pedido de desculpas de Bill Clinton, em visita diplomática a um país da obsessão nuclear, o «querido líder» ditador, Kim Jong Il, concedeu «especial perdão» a duas jornalistas norte-americanas, críticas do regime, coagidas a trabalhos forçados.

Israel: Israel expulsa famílias palestinianas de Jerusalém Oriental; Centro Juvenil de Apoio a Pessoas LGBT, em Telavive, é alvo de tiroteio. Duas pessoas morreram e 11 jovens ficaram feridos.

Sudão: uma jornalista é acusada de crime de ofensa à ordem moral e pública, por vestir calças. Poderá vir a ser chicoteada, em público, pelo «crime» de que é acusada. À porta do tribunal onde a sentença vai ser lida, manifestantes contra este absurdo foram recebidos com gás lacrimogéneo.

Venezuela: Chavez encerra estações de rádios, alegando querer «democratizar» a comunicação social.



Desafio a leitores: O contraponto, com notícias positivas, esperança.

domingo, 2 de agosto de 2009

ACÍLIO GALA OU O RISCO DA PAIXÃO PERMANENTE

Quando, há quatro anos, Acílio Gala resolveu não se recandidatar ao cargo de Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, o gesto foi visto como atitude sábia de quem sente ser altura de fechar um ciclo. De alguém que sabe retirar-se a tempo e mostra suficiente desprendimento para dar lugar aos novos, por saber que a vida é metanóia.

Enganou-se quem pensou que o rasgão com a política seria definitivo. Dir-se-ia que a política, sentindo-se traída, o continuou a vigiar e a seduzir constantemente, tudo fazendo para o trazer de novo ao seu regaço. Bem cedo nos demos conta que Acílio Gala não se mostrou suficientemente astucioso para se separar dela. Abandonada a cadeira do poder, tornou-se rapidamente numa espécie de Ulisses ao contrário: libertou-se da Penélope que era a sua nova vida de aposentado, para se entregar outra vez, aparentemente ainda mais enfeitiçado, nos braços da sua antiga Circe política.

Foi vê-lo, então, a usar o enorme poder simbólico que dezasseis anos à frente do município inevitavelmente conferem. Umas vezes na imprensa, a demarcar o território, com textos acutilantes e corrosivos sobre a defesa do património municipal e o dever de preservar a memória, como aconteceu com a Cerâmica Rocha/Museu de Olaria e Grés, ou com as cartas abertas ao actual inquilino do município a propósito da demolição da antiga Casa da Câmara e da construção da Alameda; outras vezes marcando presença na primeira fila de alguns actos solenes, condicionando objectivamente o discurso político de Mário João Oliveira, que está longe de ser um mestre da oratória e de galvanizar auditórios. A um Presidente de Câmara não basta ser austero ou honesto, como é certamente o caso. Convém que saiba ouvir, mas sobretudo convencer.

O pouco tempo nas andanças da política ainda não permitiu a Mário João Oliveira adquirir algumas competências específicas que Pierre Bourdieu designa por “habitus”, um corpo de saberes, saber-ser e saber-fazer dos quais se destacam o domínio da gramática, da dialéctica e da oratória, instrumentos importantes na concorrência e na competição entre as várias forças políticas em confronto. Em política, passa ainda muito pelo verbo a mobilização de grupos e eleitores. A maior ou menor eficácia comunicacional pode motivar ou desmotivar, reforçar ou fragilizar, legitimar ou deslegitimar o discurso próprio em relação aos discursos alheios.

A velha raposa política que é Acílio Gala conhece tudo isso e não enjeitou as oportunidades que se lhe foram deparando, ao longo dos últimos quatro anos, para pôr a nu as evidentes fragilidades que nesta matéria dá mostras o seu principal adversário político. Mas não podemos deixar de perguntar: porque se meteu “nisto”, outra vez? Que faz correr um homem com um currículo profissional e político invejável, mas que já roçou o batente dos oitenta? Avança de novo por amar o concelho de Oliveira do Bairro acima de todas as coisas? Ou porque o exercício do poder ainda o fascina? Como forma de combater a solidão que um merecido repouso do guerreiro sempre provoca? Ou porque não há, no seu partido, quem o substitua com tão fortes probabilidades de êxito eleitoral?

A idade não constitui um óbice quando se mantém intocada a lucidez e a vivacidade intelectual. Churchil ou Adenauer aí estão para o demonstrar. Mas é irresistível não comparar o regresso à política de Acílio Gala com o de Mário Soares. A idade vai influenciar a escolha dos candidatos, ou o que vai prevalecer no acto de votar é a experiência adquirida, a herança legada, o prestígio entretanto acumulado? Acílio Gala é um homem de acção e de luta e o seu regresso à política não deixa de ser um acto de coragem. E um pauzinho na engrenagem do calculismo do jogo eleitoral dos seus adversários políticos.

O regresso do dinossauro excelentíssimo da nossa política concelhia veio baralhar os dados, abalar algumas certezas, condicionar discursos, ajustar estratégias, tornar tudo mais fluido e instável. No PSD, António Mota está de saída. Num momento destes, ver partir o mais tarimbado e experiente dos três vereadores social-democratas não deixa de ser um rombo na imagem, nas aspirações e na coesão de uma equipa que deseja renovar a confiança do eleitorado. Há quatro anos a vitória do PSD não foi folgada. Desta vez, tudo pode depender do resultado das eleições legislativas. Se o PSD as ganhar, acrescentando nova vitória à que obteve nas europeias, a dinâmica estará criada e o carisma de Acílio Gala não deverá ser suficiente para travar novo sucesso eleitoral do partido laranja.

Sejamos claros: a não ser que a campanha eleitoral para as autárquicas mostre o contrário, para o cidadão comum não parece ser muito diferente a visão política, social e económica que os dois principais candidatos exibem para o desenvolvimento do concelho. Será mais uma questão de estilo, uma diferente articulação formal do poder. O problema é que nestas coisas não é possível sentar dois homens na cadeira presidencial ao mesmo tempo. Alguém vai ter que ficar de fora, embora não haja drama nenhum nisso.

Se for Mário João Oliveira a sair, espera-o o regresso a tempo inteiro a uma actividade empresarial da qual nunca quis desligar-se enquanto Presidente de Câmara. Sintoma evidente que as musas da política não o seduzem assim tanto, ao ponto de abandonar tudo por elas.

Se for Acílio Gala a ficar de fora, será talvez o adeus definitivo à vida política activa. Como sucedeu a Coriolano na tragédia shakespeariana, o vencedor de tantas batalhas, às vezes acusado de arrogância pelos seus adversários políticos, poderá enfrentar a melancolia do homem só, um tanto desiludido por não ver novamente reconhecido o seu valor por uma população que o premiou com quatro maiorias consecutivas.

O jogo político concelhio passará então a jogar-se sem ele. Resta saber se vai jogar-se melhor depois dele.


sábado, 25 de julho de 2009

MOUVA #4, este domingo (26/7)

Na toalha de praia com... comércio, saúde e cultura

Está aí a 4ª edição do MOUVA. Este domingo, o Mercado dos Objectos Usados, Víveres e Artesanato ocupa, de novo, a Praça de São Pedro, na Palhaça, com novidades extra-comerciais: uma acção de sensibilização sobre a Gripe A, um rastreio à tensão arterial, rufares do Grupo de Bombos da ADREP, melodias soltas pelo projecto Sust#nido, uma «praia verde» e uma oficina de Origamis. Interessou-lhe a ementa? Se sim, apareça e participe: domingo, 26, na Palhaça.


PROGRAMA:

Percussão: Animação do Grupo de Bombos da ADREP (11h/14h)
Músico-melodia: Sust#nido (12h15)
Workshop de Origamis (dos 6 aos 12 anos): «Brincar A Dobrar» (15-16h)
«Espaço Encantado»: Tererés + Pinturas Faciais (10-16h)
Praia Verde: Centro de Massagens e Lazer (10-16h)
Acções de Saúde: Acção de sensibilização sobre prevenção de Gripe A; Rastreio à tensão arterial (10-16h)



Mais informação em: http://mouvapalhaca.blogspot.com

domingo, 19 de julho de 2009

O Nosso Presente e o Nosso Futuro: Algumas Questões Prementes (10 reflexões para um debate político)

1. Ainda bem que o documento começa por fazer uma profissão de fé na existência dos partidos políticos – essenciais ao funcionamento da democracia representativa – o que significa que os seus subscritores contam também com eles para ultrapassar os graves problemas de funcionamento com que se debate a sociedade portuguesa contemporânea. É preciso saber resistir aos cantos de sereia dos que já começam a defender, em nome da segurança e da ordem, governos “fortes”. Gente que, como corolário da crítica aos partidos, parece apostar – embora não o diga expressamente – num velho e requentado fascínio por um tipo de legitimidade governativa que desvaloriza as “maiorias ignaras” de que falava Herculano e aposta nas competências técnicas e no mérito dos que supostamente possuem a moral necessária à morigeração da sociedade. Ora é preciso dizer que esse tipo de soluções, extraparlamentares e de pendor ditatorial, já experimentadas anteriormente em Portugal – veja-se o projecto cesarista de Oliveira Martins – está cada vez mais condenado ao fracasso e nunca foi capaz de ultrapassar os vícios dos mecanismos institucionais do parlamentarismo.

2. O documento agora apresentado é sem dúvida um sobressalto cívico importante. Tenho, porém, em relação aos seus resultados, o maior cepticismo. Explico porquê. Tudo passa, inevitavelmente, pelos partidos. Duvido que se consigam melhorar significativamente as coisas com “estes” partidos, caso não estejam dispostos a alterar as regras do seu funcionamento. Ao ler o documento, lembrei-me de um texto arrasador para o sistema político português, assinado por Clara Ferreira Alves no Expresso, em 2008. É um retrato impiedoso do país que somos. Após enumerar uma longa lista de casos graves que abalaram Portugal e que nunca foram resolvidos (desde o enigma da morte de Sá Carneiro ao caso Freeport, passando pelo processo Casa Pia, entre tantos outros) e que são o sintoma mais evidente dos compadrios políticos, do encobrimento e da corrupção a que os portugueses respondem com o habitual e displicente encolher de ombros que os caracteriza, a jornalista conclui: “Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecção e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociação, que impede a escavação da verdade”.

3. Vou pois centrar-me na crise de legitimação do sistema político, e na manifesta inadequação dos partidos políticos aos novos problemas emergentes, por acreditar que as mudanças que o documento propõe passam muito pela superação da incapacidade que estes denotam em integrar e dar solução às exigências de transformação de uma sociedade mergulhada em clima de medo e desconfiança, profundamente assimétrica e desigual, onde, por isso mesmo, sem um resquício de igualdade digna desse nome, a liberdade é privilégio apenas de alguns. As manchas de pobreza e exclusão social são iniludíveis e constituem um poderosos desafio à coesão das sociedades actuais, obrigando-nos a questionar, de forma clara, os conceitos e as políticas de protecção social. O volume de bens e serviços gerados pelo modelo económico vigente acaba por criar obstáculos ao seu acesso por parte de um número considerável de cidadãos. Não significa isso a demonstração clara da muito desigual repartição da riqueza produzida? Não são até estes contrastes entre pólos de desenvolvimento e zonas de exclusão mais chocantes do que no passado? Que crédito nos merecem os actuais mecanismos de redistribuição de riqueza? Não serão o avesso dos propalados valores e princípios democráticos? Eis uma das perplexidades maiores do nosso tempo: os avanços científicos e tecnológicos geram, a par do crescimento da riqueza, uma mole imensa de deserdados e excluídos, gente privada do mais elementar exercício de cidadania.

4. A função política dos sistemas eleitorais não se esgota apenas na nomeação de representantes das populações: deve garantir, também, eficácia governativa. Convém então dizer que o drama da governabilidade não é exclusivamente português. Mesmo em países com tradições democráticas mais arreigadas, a imagem de marca dos partidos está longe de ser impecável. O caso da Itália é disso exemplo elucidativo. Não estaremos perante a inadequação de um determinado modelo partidário a uma sociedade complexa? Tudo está, portanto, em aberto. Como lucidamente avisa Eduardo Lourenço, a democracia não é, por si só, “uma máquina de felicidade política ... e se precisássemos de símbolos para ela devíamos associá-la ao trabalho sem cessar recomeçado por Penélope”.

5. Aos partidos políticos cabe empenharem-se no combate à insuficiente democraticidade interna, a qual é inibidora da participação dos cidadãos; promover uma mais equilibrada representação de certos grupos sociais entre os seus membros; garantir uma profissionalização crescente do recrutamento do pessoal político, que até agora não tem passado de um meio expedito de fazer carreira entre as classes privilegiadas; evitar o predomínio dos interesses económicos, que acabam por sufocar todos os outros; centrar o seu esforço na diminuição dos antagonismos de classe e na criação generalizada de índices de conforto e bem-estar. Aquilo a que os partidos chamam “estabilidade democrática”, não passa de uma falácia enquanto as suas formas de agir continuarem a gerar o abandono, a falta de empenhamento e de representação activa de um significativo número de cidadãos. Como refere Eduardo Lourenço, “a opacidade reverteu para o interior de cada partido de massa e é tanto mais densa quanto mais de massa for”.

6. Por outro lado, conviria discutir, abertamente e com clareza, as vantagens e inconvenientes da actual definição das circunscrições eleitorais, ou a própria heterogeneidade dos círculos. Temos dois que, se não erro, elegem quase metade do Parlamento (Lisboa e Porto). Interessam-nos os círculos uninominais ou plurinominais, votar em listas ou em pessoas concretas? Em qual deles é possível assegurar melhor os interesses dos cidadãos e responsabilizar, de forma mais eficaz e transparente, os deputados que nos representam? Valorizamos um sistema parlamentar, semi-parlamentar ou presidencial? Damos preferência a um sistema maioritário (cujo paradigma é o modelo inglês) ou a um sistema representativo como o português? Queremos um sistema eleitoral que dependa mais do eleitorado ou dos partidos? Um sistema gerador de maiorias, que garanta eficácia governativa, embora algo injusto, porque não há tradução correcta de votos em mandatos, ou um sistema eleitoral mais respeitador das minorias, mas que reforça a partidocracia e gera a fragmentação? Qual o modelo que faz ressaltar mais a qualidade dos deputados e um maior controlo dos eleitores face aos eleitos? Que modelo garante um maior rejuvenescimento, substituição ou rotação dos deputados? Qual o que valoriza mais o voto dos indecisos?

7. Os sistemas de partidos reflectem aspectos fundamentais do processo democrático. Estão ligados à autonomia das instituições e à forma como elas permitem resolver o problema dos antagonismos políticos. Que preferimos: um multipartidarismo com partido dominante, o bipartidarismo puro, ou o partidarismo imperfeito? Ao proceder a um balanço dos problemas suscitados pelo multipartidarismo e pelo monopartidarismo, Maurice Duverger opina que o bipartidarismo suprime os conflitos secundários (todas as oposições passam a exprimir-se no quadro de um antagonismo fundamental) enquanto que o monopartidarismo aumenta os conflitos secundários e fracciona os grandes antagonismos. Tal constatação tem levado alguns legisladores a tentar limitar o número de partidos e a fazer caminhar o sistema político para o bipartidarismo. Diria que em Portugal essa tentação é crescente, alimentada pelo desejo de estabilidade política. A questão que tudo isto coloca é a de se saber se não será eticamente reprovável restringir o leque de partidos e obrigar os eleitores a votar apenas em dois deles, que acabariam por funcionar como motores de exclusão de uma boa parte do eleitorado que neles não se revê, pois há cada vez mais gente que não se identifica, ou sente representada, pelos dois grandes partidos que têm alternado no poder em Portugal. Até que ponto uma solução desta natureza não viola o princípio democrático? Num regime genuinamente democrático não deve a maioria permitir que a minoria se expresse na tomada de posições e não apenas de uma forma meramente consultiva? Eis algumas questões urgentes e inadiáveis a que conviria dar resposta, não tanto por se encontrarem na ordem do dia mas precisamente porque tantas vezes o não estão.

8. Assistimos hoje à emergência de novos problemas que alteraram profundamente a organização das sociedades. Basta citar as alterações demográficas e o aumento da esperança média de vida, a persistência do desemprego, o crescimento exponencial de gastos com a saúde, o flagelo a toxicodependência e da sida ou os problemas associados à criminalidade e à insegurança. Nunca como hoje o poder político foi obrigado a renunciar às rotinas da sua actuação clássica e a negociar ou estabelecer consensos com os novos grupos de pressão (ambientalistas, consumidores) ou organizações não governamentais com um campo de actuação ainda mais vasto. Enfrentamos, por assim dizer, uma mudança de paradigma. Sendo certo que não há democracia sem educação para a cidadania, não é menos verdade que o quadro político-partidário não esgota os anseios de uma cidadania solidária e interveniente. Os partidos já não correspondem, só por si, à complexidade das solicitações engendradas pelas sociedades actuais. Verdadeiras sociedades de risco e de ameaça à coesão social, nas quais o Estado se vê confrontado com novas exigências. Urge combater uma nova lógica de desenvolvimento económico que se dissociou do desenvolvimento social, que em vez de colocar a economia ao serviço do homem, colocou este ao serviço daquela. É preciso combater, sem tibiezas, uma política de liberalização do mercado e de maximização dos lucros, que se coloca friamente e sem alma à margem dos problemas sociais daí resultantes. Quanto mais for capaz de minimizar os riscos e garantir a segurança dos cidadão mais fiável será o Estado. É cada vez mais na resolução da aporia exclusão/inclusão que assenta a sua credibilidade e também a do sistema político de representação.

9. A comunhão ideológica parece estar a perder terreno. A expressão corrente e banalizada da intervenção política, abarcando os clichés, os preconceitos, os mitos e as crenças colectivas, os slogans e as vulgatas, não é já uma prerrogativa exclusiva duma casta de políticos profissionais que parece cada vez mais afastada do imenso mundo dos profanos. Seria bom que os políticos interiorizassem de vez o que deles disse há uns anos o filósofo José Gil: que não exercem quase poder nenhum, que dependem de mil forças estranhas, já não controlam nem mandam em quase nada e ninguém, restando-lhes apenas a imagem mediática. Outras entidades não partidárias, onde cabem os movimentos de cidadãos, estão a apropriar-se de forma crescente desses papéis. Num momento em que a crise de expectativas está instalada, em que a fragmentação e a diferenciação são cada vez maiores, até que ponto é legítimo exigir aos partidos políticos, e apenas a eles, resposta para todos os problemas? Estarão habilitados a incorporar a diversidade de especializações que a cada vez maior diferenciação social reclama? É de crer que não, o que leva a pressupor que os partidos começam a perder, tendencialmente, o monopólio da vida política, e vão ser obrigados a estabelecer um novo tipo de relações com novos mediadores de interesses sociais, novos artesãos e fabricantes do pensamento quotidiano, bem como com os vários intermediários culturais que fazem comunicar o chamado mundo erudito e as chamadas classes populares.

10. Ninguém faz hoje juras de fidelidade eterna aos partidos. As expectativas que anteriormente neles eram delegadas estão a ser, de forma crescente, apropriadas por outras entidades. A cada vez maior apetência pela captação do eleitorado central, baseada na política dos partidos que querem “pescar” eleitores em todos os quadrantes ideológicos (os chamados catch all parties) acabou por conduzir à sua desidentificação, ao esbatimento das fronteiras ideológicas e à indiferenciação programática. A volatilidade do voto e a abstenção são sintomas da crise de representação. Os partidos que querem ter futuro têm que dar a volta a esta equação, esforçando-se por acrescentar à democracia interna a capacidade de responder a estímulos externos.

O pior que nos pode acontecer, enquanto cidadãos, é deixarmos de ser espectadores comprometidos e permitirmos que se instale em nós a sensação de impotência para mudar as coisas. Também por isso o documento agora divulgado e subscrito por um grupo de cidadãos é importante e um contributo inestimável para o debate político. É a imaginação social em movimento, a alternativa possível aos poderes instalados do presente. É a tentativa de exploração do possível. A utopia no seu melhor, pode dizer-se. Uma tentativa de, a partir dela, garantir uma tensão no existente, criar contrapoder, abrir “o campo do possível para além do actual”, como diria Ricoeur.

Estarão os partidos à altura de discutir e analisar, de forma crítica e serena, este documento? Vão ser capazes de resistir aos acenos blandiciosos da demagogia e do calculismo político, a que o período eleitoral que se avizinha sempre convida?...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Contributo para um debate político

O nosso presente e o nosso futuro
algumas questões prementes


Encontramo-nos hoje em Portugal mergulhados numa dupla crise: uma que vem muito de trás, resultante de uma não-definição clara de objectivos consensuais para o futuro do País e outra, que resultou da aceleração e agudização desta pela crise global.

Estamos em vésperas de eleições. Os cidadãos, mulheres e homens, poderão ficar, mais uma vez, perante um menu diversificado de propostas avulsas, raramente bem esclarecidas e coerentes, sem terem em seu poder os dados necessários para fundamentarem e fazerem as suas escolhas. Continuarão alienados pela retórica dos discursos e cada vez mais descrentes quanto à importância do seu voto.

Urge, pois, neste momento crítico da sociedade portuguesa e da democracia, encontrar modos de proporcionar uma opinião pública esclarecida. E isto faz-se, em grande medida, através de debates sérios, diversos, com homens e mulheres de áreas distintas capazes de reflectir e formular não apenas “críticas pontuais”, tantas vezes de mera oportunidade partidária, mas capazes de trazer ao debate questões de fundo, conteúdos argumentados, propostas viáveis e que vão para além das receitas já conhecidas. Há que acreditar que novos projectos às escalas global e nacional são possíveis.

É com este propósito que um grupo de cidadãs e cidadãos, insatisfeitos com os conteúdos e a qualidade do debate político partidário, tomou a iniciativa de reunir neste documento alguns contributos para um melhor equacionamento de opções com que o nosso País se tem de confrontar, nesta encruzilhada em que se encontra o mundo contemporâneo.
Move-nos o desejo de uma reflexão sobre as escolhas que afectam o nosso presente e condicionam o nosso futuro.

Este documento foi construído com contributos vários e sem qualquer plano previamente traçado. Não se espere, pois, que se encontrem cobertos todos os campos da nossa vida colectiva.
Propositadamente, consideramos esta proposta aberta a outras contribuições e pontos de vista.

De um modo geral, o texto formula interrogações que implicam escolhas e admite que as diferentes forças políticas assumam posições distintas e até antagónicas. É que esta não é uma iniciativa que pretenda subestimar o papel e a relevância dos partidos políticos na vida democrática do nosso País. Procura, sim, ser um contributo para que haja um valor acrescentado no debate partidário, com base em posições e anseios da sociedade civil, na sua diversidade.

Texto na íntegra: http://www.cidadaosdebatempolitica.net/

Subscritores do texto-manifesto:
Ana Luísa Amaral, Ana Maria Pereirinha, António Pinto Ribeiro, Clara Macedo Cabral, Isabel Allegro de Magalhães, Isabel Hub Faria, Jean Barrocas, Joana Rigatto, João Ferreira do Amaral, João Sedas Nunes, Laura Ferreira dos Santos, Luís Filipe Rocha, Luís Moita, Luís Mourão, Margarida Gil, Maria do Céu Tostão, Maria Eduarda Gonçalves, Maria Helena Mira Mateus, Maria Manuela Silva, Mário Murteira, Mário Ruivo, Miguel Caetano, Philipp Barnstorf, Teresa Pizarro Beleza, Viriato Soromenho Marques.

sábado, 11 de julho de 2009

Figuras da Bairrada: Miguel França Martins, o “Zil de França”

Além de Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, Miguel França Martins, que usava o pseudónimo “Zil de França”, foi conservador do Registo Civil, presidente da União Nacional concelhia, Provedor da Misericórdia, jornalista e poeta da Plêiade Bairradina.

Colaborou com regularidade no Alma Popular, sobretudo com poesias, e no Jornal da Bairrada, onde assinava a rubrica Tempos Idos, versando temas oliveirenses. Dirigiu também o Correio de Cértima, um jornal regionalista lançado em Oliveira do Bairro em 1930, para atender aos interesses da região. Nele se assumia que a principal riqueza era o vinho, embora reconhecendo ser o mesmo, em geral, de “deficiente fabricação”.[1]

A nobre utopia ia ao ponto de idealizar que a Bairrada, mais cedo ou mais tarde, iria fatalmente apresentar no mercado mundial de vinhos “um tipo consagrado”. Curiosa, também, neste mesmo número do jornal, uma notícia sobre a Palhaça, cuja população queria ver desanexada a freguesia do concelho de Oliveira do Bairro. Tudo terá começado por causa da imposição camarária da cobrança a dinheiro do imposto braçal, medida que visava, segundo o jornal, “acabar com a bandalheira de pagar ao encarregado dos serviços camarários um dia de trabalho por um copo de vinho na adega”[2].

Como Miguel França Martins nunca publicou qualquer livro, quase ninguém conhece os saborosos textos que derramou na imprensa, sem esquecer os dedicados ao teatro popular e versos para cortejos populares, igualmente inéditos[3]. Viria a falecer prematuramente em 20 de Agosto de 1959, contava então 59 anos de idade. Era casado com Noémia Clementina Figueira, também ela conservadora do Registo Civil no nosso concelho[4].

Tenho em meu poder um número significativo de textos que Miguel França Martins publicou no Jornal da Bairrada. É prosa bem esgalhada, com ritmo, capaz de prender o leitor logo nas primeiras linhas. Uma escrita viva, atraente, que recolhe usos e costumes de tempos idos, evoca figuras típicas da região e narra episódios com laivos picarescos, de inegável cunho popular. Peças importantes, a meu ver, para uma sociologia dos costumes bairradinos. Estes textos mereciam ser reunidos em livro, para prazer e conhecimento de todos. Duvidam? Deixo aqui só um cheirinho dessa prosa fluente e saborosa, coberta ainda com o pó do esquecimento. Foi publicada no Jornal da Bairrada de 28 de Novembro de 1953 e tem por título PÃO E VINHO ... PÃO E VINHO...

“Na doce esperança de que no outro Mundo a Morte é Vida – Vita Mutatur, non tollitur – ainda, há pouco tempo, na nossa região, se festejava a Morte como um simples acontecimento transitório da Vida, para uma outra vida melhor. Sim, ainda há muito poucos anos que foi abolida, nos funerais da nossa região, a patuscada nos enterros, com que, lautamente, se banqueteavam à custa do morto todos aqueles que acompanhavam o féretro ao cemitério. E, misturados com coroas, em cujas dedicatórias se liam, a letras doiradas, saudades eternas e últimos beijos, se conduziam à cabeça das mulheres, de luto, canastras de pão alvo da Ti Joana Padeira, que regalava os olhos e abria o apetite. Canastras de pão e almudes de vinho e, às vezes, até queijo amanteigado da serra a esbarrondar-se da casca, ante os olhos ávidos do acompanhamento, que seguia, no silêncio das grandes dores.

Estas iguarias eram conduzidas para um estabelecimento da vila e ali se estabelecia, então, o Festim Post Mortem que, às vezes, até acabava com pancadaria, muito principalmente se metesse queijo e se alguns dos assistentes o fossem distribuindo pelos bolsos.

Ficou tradicional a interpretação dos sons que provinham das torres que tinham três sinos. Quando falecia um remediado, só tocavam dois, cujo som se assemelhava ou era interpretado com a letra da seguinte frase: “Pão e vinho ... Pão e Vinho ...”. Mas quando falecia, na terra, um rico lavrador, entrava, então, a tocar, também, o terceiro sino. Com som mais cavo, mais doloroso e mais profundo, que mais longe levava o som lúgrube dos seus gemidos e a ementa da merenda, completava-se a frase: “E... queijo.... e... queijo...”.

A patuscada nas lojas desapareceu para dar lugar à abertura da porta da adega, em casa do morto.

Quando faleceu a mulher do nosso engraçado Manuel João, o vizinho Marcos Vela foi apresentar, ao seu amigo enlutado, os sentimentos da sua dor e o Manuel João, em vez de agradecer as condolências sinceras que o Marcos lhe apresentava, diz:

- Olha, ó Marcos, vai abrir a porta da adega, bebe e dá de beber a essa gente.

Esta atitude é já uma última reminiscência dos velhos e apagados costumes do “Pão e Vinho... Pão e Vinho... e Queijo...”.

Estes costumes desapareceram, mas o que não desaparece, nos corações das pessoas bem formadas, é que, realmente – Vita mutatur, non tollitur”.


[1] Correio de Cértima, n.º 3, 30.08.1930.
[2] Idem, n.º 6, 25.10.1930.
[3] Arsénio Mota, Figuras das Letras e Artes na Bairrada, Porto, Campo das Letras, 2001, pp. 93-94.
[4] Jornal da Bairrada, Ano IX, n.º 217, 29.08.1959.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Contra a instabilidade climatérica...fez-se MOUVA

Nem de propósito, uma manfifestação contra as condições climatéricas. Vale a pena apreciar toda a iniciativa na edição eletrónica do diário I, em http://www.ionline.pt/conteudos/home.html.
Pela Palhaça a manifestação foi outra...Mouva, mesmo sob a ameaça de uma dança de nuvens ao longo do dia. Apesar da ameaça de chuva de manhã, um "boicote" claro ao entusiasmo matinal para vendedores e organização, o Mouva provou que vive da iniciativa e vontade de vendedores e trausentes. A chuva passou, as nuvens foram-se passeando, a animação cancelada por segurança, mas o Mouva foi acontecendo ao longo do dia. A praça foi sendo local de passagem para satisfação dos vendedores que, contra todas as intempéries e ameaças, decidiram fazer da Praça de S.Pedro a sua sala de estar de domingo.


Um dia que se fez quente e agradável, agora com espaço renovado para as crianças que ganharam não um mas dois parques infantis segundo mandam as normas. Foi um prazer ver o parque repleto ao longo do dia.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

MO(U)VA vida na Palhaça


Programa
12h/15h - Ioga do riso (com Vanessa Correia, CITAC);
12h15 - Infantário da Praça: Actividades para crianças com histórias e desenho
11h/15h - Actuação da dupla BD (Alunos de violino e guitarra da Escola de Artes da Bairrada);
10h/16h - Performances interactivas (por actores do CITAC -Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra);
10h/16h - Exposição de fotografias: "Praças" (Última oportunidade)