quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um campo onde cresça trigo


Carlos, perdoa que traga para a ribalta sob a forma de post o que deveria, talvez, ser apenas um comentário ao teu último comentário. Mas um comentário a um comentário já me parece argumentação e eu queria a todo o custo fugir a isso. Prefiro pensar este texto como uma co-resposta (uma parte da resposta é tua) a uma inquietude de ambos. Como penso que essa inquietude não é apenas de nós os dois, decidi deixar as traseiras e trazê-la para a frente, para a praça pública da Palhaça.

Ontem mesmo, ouvindo as notícias sobre o que se passa no Paquistão (o apoio dos líderes religiosos moderados islâmicos ao governo paquistanês na luta contra os talibã) pensei como é difícil sustentar o que apresentei aqui (seria: já que não o quis sustentar verdadeiramente, ainda que a linguagem me traia). Quando são os próprios muçulmanos a considerarem os talibã radicais, que se há-de fazer?...

Em nome de um orgulho pessoal, eu poderia desmontar este exemplo por mim próprio dado, expondo as contradições que existem entre «ser moderado» e «lutar contra», quando isso significa matar centenas de pessoas. E, naturalmente, acrescentar a isto a objecção (que foi a da Resistência francesa ou da Resistência timorense) de que «valores mais altos se levantam» em alguns momentos cruciais da História. Conheço razoavelmente as regras da Lógica e da Retórica, para poder prolongar uma disputa com seriedade. Acontece que a mera argumentação não me deixa satisfeito. Sempre que caio na tentação da argumentação, apetece-me abandonar o tabuleiro; sinto que traio algo muito mais importante. Será falta de humildade?

Tenho tentado pensar as aporias do debate de ideias, como sabes. (Quem quiser ver pode consultar as minhas reflexões aqui e aqui.) A verdade é que duvido demasiadas vezes da fecundidade da argumentação; acredito cada vez mais na fecundidade das palavras de alguns poetas e romancistas, nas palavras que brotam da condição de «absolutamente sós» (Maria Gabriela Llansol) que todos somos. Recentemente estive no Parlamento e aquilo a que assisti foi tudo menos uma luta pelo Bem Comum. No debate nunca chegou o momento dos consensos ou das concessões. Todos estavam muito interessados em marcar o seu campo ideológico e hipotéticas cedências não fariam senão parte do léxico da estratégia partidária. Ganhou, claro, o mais forte, o partido do Governo. Mas ganhou o quê? Nem deputados, nem Governo, nem aqueles que representam ganharam o que quer que seja. Perderam menos, talvez. Tal como aqueles que sobrevivem à guerra, aleijados por fora ou por dentro.


Sendo o debate absolutamente necessário para a democracia, um aprofundamento da democracia parece conduzir-nos a algo bem diferente dos resultados da simples polémica partidária. De resto, as tuas dúvidas são as minhas. Mas o pacifismo não foi suficientemente testado, para poder ser negado. Curiosamente, no discurso que conduziu Gandhi ao que veio a ser, ele falava em auto-determinação dos indianos em termos de uma dignidade que eles teriam de reconquistar por si e não contra os ingleses. Seja como for, o pacifismo de Gandhi ou qualquer pacifismo também não é a meta, mas um pôr-se a caminho para outra coisa; é uma vereda que se abre (e que se julgava não ser possível). Vereda para onde, dando para quê? É uma intuição muito vaga o que tenho para expor, mas na qual estou disposto a trabalhar. Giorgio Agamben, já citado, fala nela como «comunidade que vem». Virginia Woolf, abençoada por uma linguagem cem vezes mais rigorosa que a dos filósofos, esboça já essa comunidade, com frases como: «somos membros uns dos outros», «fazemos parte de um todo», «representamos papéis diferentes mas somos o mesmo», «penso ter compreendido que a natureza também tem uma tarefa a desempenhar», «não acham que nos devemos unir?».

Ora, isto merece um sorriso (amarelo? sardónico? complacente?). Porque isto já não é da ordem dos princípios, como dizes, é, isso sim, da ordem do delírio místico! Acontece que, por debaixo dos factos, acredito que existe algo que está no anseio mais profundo do ser humano e que não é apenas fruto do nosso cérebro reptiliano, aquele que, como sabes, ficou de quando éramos répteis para continuarmos a competir e a sobreviver. Porém, como também sabes Carlos, os factos (históricos), bem como os belos princípios, são provisórios.

Continuo numa posição incómoda, para aquilo que quero aqui dizer. Escrever, enquanto enunciação ou afirmação de algo, é estabelecer um lugar, logo uma posição. Mas eu quereria desocupar esse lugar de exposição na mira de alguém, nem ser tido como algo no campo. Eu quereria que o campo se mostrasse a si próprio. Eu nem quereria defender o campo, que não é minha propriedade, nem de ninguém, e é de todos.


O que eu estou a querer dizer são coisas pouco precisas e dificilmente aceitáveis, para alguém realista, tais como: «Os talibã são uma força hedionda, e os nazis eram-no. Mas eles são fruto de um ressentimento: a repetição do medo. E o medo previne-se; o combate só vai criar mais medo.» De facto acredito que andamos todos ao mesmo, só que andamos às apalpadelas. Pelo caminho ferimo-nos e ferimos; e ferimos tanto mais nos sintamos feridos. «Todo o homem é uma criança ferida» dizia o Irmão Roger, da comunidade ecuménica de Taizé. Acabou com uma faca cravada de uma rapariga que certamente tinha uma ferida muito grande no cérebro.

Mas a ferida no cérebro é de todos. Há duas forças antagónicas em nós: a vontade de poder (dominar) e a vontade de pujança (criar). Não nego esse antagonismo. Como poderia negar o que todos os dias experimentamos? Mas tem-se dado muito pouco espaço à vontade de pujança (os políticos, então, temem-na que é uma coisa séria…). Trabalhar para formarmos apátridas (que no entanto habitam uma Casa Comum) e a-centrados (que reconhecem a sua e a fragilidade do outro e se investem na exposição e no cuidado) deveria ser o nosso empenho – o nosso perigo, se quiseres. Mais do que em factos ou em princípios acredito que é possível trabalhar num campo em que cresça trigo e não cadáveres ou refugiados. É a única fé que me resta na humanidade. Sim, prefiro a esperança ao realismo. Obama chama a este «cinismo». Obama que, já agora, é apenas um homem. Mas um homem, dizem-nos as maravilhas que ele criou e aquilo que ele amou, não é apenas um homem.

Terminaria, pois, com uma citação de Italo Calvino, o final da sua obra As cidades invisíveis: «- O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.»

Paulo Carvalho

domingo, 17 de maio de 2009

Morrer em nome da pátria - o que é isso?













Recentemente o Carlos trouxe para aqui o assunto. No princípio dos anos 90, andava eu por entre tumbas no cemitério da Palhaça recolhendo aquilo a que, no âmbito de um trabalho que fazia para o Museu Paroquial, chamei «poesia lapidar», quando parei diante destes versos:

Jaz aqui em campa fria
Um soldado português
Que Moçambique defendia
Com galhardia e altivez


De todos os versos recolhidos, estes eram talvez os que mais pungentemente resumiam os limites de uma vida concreta, abstendo-se, ao contrário dos das demais campas, de dar conselhos pios aos que ficavam. Em comum com os outros tinham, porém, isto: serem voz dos que ficavam.

Não sou anti-militarista pela simples razão de que ser «anti-qualquer-coisa» faria de mim, de certo modo, militarista. Não milito; o que não faz de mim necessariamente um ser amorfo em relação à guerra. Que me perdoem os mortos e os sobreviventes que acreditam no inverso, mas considero absurda toda a morte feita em nome de um território. Porque não há outro território que o comum território da crosta terrestre; e mesmo essa, sabe-se agora, não é nossa. Porque não há guerra que seja ganho ou preserve o que quer que seja. E, por isso, e para que a perda não seja irreparável, quero hoje enaltecer esse soldado da minha terra de outra forma: dando-lhe voz. Pedindo emprestadas as palavras do poeta americano Edgar Lee Masters:

KNOWLT HOHEIMER

Eu fui o primeiro fruto da batalha de Missionary Ridge.
Quando senti a bala atravessar-me o coração
desejei ter ficado em casa e ter ido preso
pelo roubo dos porcos do Curly Trenary,
em vez de ter fugido para me alistar no exército.
Mil vezes a cadeia municipal
do que jazer aqui sob esta figura alada de mármore
e um pedestal de granito
com palavras - «Pro Patria» -
que não sei o que querem dizer.

Edgar Morin: Proposta de Reforma Radical no Ensino

Edgar Morin defende"reforma radical" no ensino para acabar com "hiperespecialização" 17.05.2009 - 14h25 Simon Kamm, Agência Lusa

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin defende uma "reforma radical" do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de passar da actual 'hiperespecialização' para uma aprendizagem que "integre as várias áreas do conhecimento".

Edgar Morin, considerado um dos maiores pensadores vivos, defende que apenas com esta mudança de paradigma no ensino as pessoas serão "capazes de compreender e enfrentar os problemas fundamentais da humanidade, cada vez mais complexos e globais".

Em entrevista à Lusa antes da sua vinda a Lisboa para participar num colóquio promovido sexta-feira pelo Instituto Piaget sobre os problemas estruturais dos actuais modelos de ensino, o filósofo francês considera que o modelo actual leva a "negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança". "Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo", sublinha.


in Público


Ler notícia completa aqui

sexta-feira, 15 de maio de 2009

As Belas Vistas deste país...

Em plena campanha eleitoral, Paulo Portas - um eficaz estratega político - vai capitalizando votos com as suas declarações populares sobre casos como o do Bairro da Bela Vista (alguém sabe ao certo o que se passou ali?). O simplismo com que trata um problema de «guetização», de pelo menos 3 décadas, ajudado por alguns media que gostam de «manipulação-versão-filme-de-acção-fogo-de-vista-da-realidade», é alarmante, mas é-lhe sobretudo útil e oportuno.

A estratégia deste senhor parece-me, à minha vista, a seguinte: Alarmar e aproveitar alguns casos pontuais de desordem para destacar o seu partido, colocando-o na «vanguarda» - mediática - do combate a um certo tipo de crime, menosprezando a raíz dos problemas, confundindo o «leitor» da realidade mais distraído com equívocos e armadilhas (as fáceis generalizações e o recurso ao tema das minorias étnicas e dos imigrantes também lhe são queridos). Acredito que a sensatez de qualquer pessoa que páre um pouco para reflectir sobre estes temas a leve a uma conclusão de que, na infância, a delinquência, a prostituição e outros flagelos sociais não serão, porventura, os sonhos dos que enveredam por aí.

Imagino uma resposta do senhor a este post: este tipo ou é de uma «extrema-esquerda lírica», ou é de um PS «incompetente» ou dum «PSD mole», no que toca à sua resposta à criminalidade em «bairros problemáticos» (Conotações entre-aspas atribuídas, de facto, por Portas ao espectro político português).

Pois, responder a um problema estrutural (criado por políticas de exclusão e isolamento social) apenas com «músculos» e com repressão há-de combater alguns actos ilícitos e, especialmente, os problemas sociais [ler ironia]... Aliás, não é preciso ir ao PNR para ouvir declarações a favor da eliminação e/ou expulsão de determinadas pessoas do país ou de regresso à ideia de justiça popular. Também se pode explicar este fenómeno sem se ser formado em Sociologia.

Gostava de ver os media a mostrarem, com semelhante pujança como o fazem com o «espectáculo do terror e do crime», outras vistas destes bairros, isto é, o outro lado, onde existem artistas a fazerem trabalhos muito meritórios (caso do festival Alkantara), a solidariedade, instituições de sócio-culturais muito dinâmicas (ex: Associação Cultural Moinho da Juventude, na Cova da Moura). Gostava de «ver» menos condomínios fechados (quer de ricos, quer de pobres), que, hoje, reflectem uma sociedade fortemente dividida e fragilizada, porque excessivamente assimétrica (os responsáveis pelos tiros na chamada classe média serão mesmo os beneficiários do RSI?). Gostava de ver os políticos a debaterem, em nome do bem comum, políticas de integração e de desmantelamento de bairros sociais (como o fizeram, e bem, com o Casal Ventoso). Gostava de ver mais oportunidades (não ilusões, como as do crédito fácil a curto-prazo, nas últimas duas décadas), mais futuro, mais formação profissional e educação, mais injecção de confiança e estima, salários compatíveis com o custo de vida - para quem está dentro e fora de bairros sociais, para as crianças, os jovens, para os adultos, para os desempregados.


Algum comentário - menos lírico ou mole ou incompetente, como este - sobre as Belas Vistas do país?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Democracia Representativa?

Deputados portugueses exercem mais por carreira do que por vocação
13.05.2009 - 08h00 Maria Lopes

Homem, entre os 40 e os 50 anos, com qualificações superiores, preferencialmente na área do Direito, com estatuto económico-social privilegiado, filiado no partido há longos anos. Este é apenas um esboço do retrato elaborado por Conceição Pequito Teixeira, docente e investigadora do Instituto de Ciências Sociais e Políticas, num novo estudo agora publicado.

Acrescente-se que espera ser reeleito, e para isso cumpre à risca disciplinas, como a de voto, que demonstram a sua lealdade ao partido. Se não se encontra na Assembleia da República neste momento é porque está no Governo, noutro cargo político ou porque aguarda ser incluído nas listas das próximas legislativas.

A autora — que ontem lançou o livro “O Povo Semi-Soberano. Partidos e Recrutamento Parlamentar em Portugal” — tentou traçar o perfil dos candidatos e deputados ao Parlamento nacional desde os anos 70 até 2002, saber como os partidos escolhem as listas que levam às eleições. Como são os órgãos centrais e os líderes nacionais dos partidos — são hoje “autênticas 'empresas políticas’” —, que escolhem os candidatos, optam sempre por pessoas que já estão no partido, mais velhas, habitualmente juristas, funcionários públicos e professores, e com experiência prévia na actividade política.


in Público

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domingo, 10 de maio de 2009

Praça de São Marcos: o coração de Veneza


A Veneza, cidade única, mágica e irreal, pode chegar-se de lancha, e o deslumbramento começa logo aí, antes de pisarmos terra firme. Ilha intrometida no Adriático, onde se cruzam muitas culturas e povos, de judeus a mouros e mercadores, celebrada pela literatura, pelo cinema e pelo teatro. A água é o elemento marcante, transmite-lhe uma aura de encantamento e parece integrar a arquitectura dos palácios da velha aristocracia que se debruçam sobre ela.

Praça de São Marcos: um exercício de rigor geométrico e perspectiva. Um altar de veneração turística. Cenário, em Fevereiro, de um Carnaval deslumbrante. Palco, noutros tempos, de paradas, procissões e actividades políticas. Portanto, uma praça com história. Talvez única no mundo. Centro nevrálgico da cidade aquática, à qual apetece sempre voltar, porque nela há cafés com pequenas orquestras, onde se pode apreciar um capuccino ao som de música de câmara tocada ao vivo.


Aqui, tudo é fascínio, pois a beleza parece ressuscitar a cada instante: a luminosidade que a envolve; o manto líquido que lhe beija os alicerces; a domesticação humana dos materiais arquitectónicos; a água – sempre a água – ali bem perto, a transbordar por praças e vielas.

Ao sair dela, envolve-nos o som indolente dos remos nos canais que escondem e desvendam segredos em cada canto, por onde deslizam vaporettos e gôndolas que transportam turistas, como antes transportavam os seus doges.. O vaporetto é uma espécie de autocarro aquático que sabe respeitar as gôndolas, ladeando-as sem lhes disputar o romantismo. E há o cântico dos gondolieri. E a teia labiríntica das ruas, becos, pontes e pequenas praças que repousam sobre a laguna. Tudo povoado de museus, monumentos e igrejas. Os canais lembram veias e artérias, ligadas a um coração que bate: a Praça.


À despedida, lançamos um olhar nostálgico à Praça enxameada de turistas ávidos de emoções. E cresce em nós, enroscado já em saudade, um desejo irreprimível de regresso àqueles ares lavados e tranquilos, onde há simbolismo e espiritualidade, monumentalidade e beleza artística. Naquela Praça aberta ao mar, ao vento e à luz, inundada de pombas, muitas pombas, desprovida de lixo, publicidade afrontosa ou ocupação abusiva dos seus espaços, tudo convida à contemplação e à embriaguês dos sentidos.

Há praças assim, que merecem ser amadas pelos amantes.

Talvez não por acaso, Casanova, o sedutor, era veneziano.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

MOUVA MOSTRA FOTOGRAFIA - Todos podem participar

Partilhe connosco o seu olhar sobre uma praça.
A praça do peixe, a praça da Figueira, a praça de S.Pedro, a praça da sua infância ou do seu futuro. Aquela que já não lhe cabe no olhar de tanto a admirar.
Para participar nesta exposição entregue/envie a sua fotografia até dia 22 de Maio juntamente com uma breve explicação (máx.400 caracteres).
O seu olhar regressa a casa pronto a pendurar na parede.
Exposição: 31 Maio a 28 Junho Inscrição: 5€ (ampliação da fotografia 20x30 e moldura)

Mais informações aqui

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Armor Pires Mota: a justa homenagem a um vedor da autenticidade popular

Como forma de reconhecer o mérito profissional e de assinalar os 50 anos de actividade literária de Armor Pires Mota [APM] o Rotary Club de Oliveira do Bairro vai prestar-lhe uma justa homenagem, no próximo dia 9 de Maio.

Aviso à navegação: não tenho estado sempre de acordo com o que APM tem escrito ao longo dos anos, quer em textos de cunho vincadamente político, quer noutros centrados na área da investigação histórica, ou em alguns fragmentos das várias monografias que publicou. Isso não me impede de lhe reconhecer nobreza de carácter na defesa dos pontos de vista em que acredita. Nem de lhe creditar inestimáveis contributos para o conhecimento da história local de algumas terras do concelho de Oliveira do Bairro. Toda a terra merece ter a sua história e algumas não a tinham. Ou porque quem a poderia escrever desapareceu bem cedo do mundo dos vivos – é o caso do padre Acúrcio ou de Miguel França Martins, em Oliveira do Bairro – ou porque simplesmente outros não se sentiram capazes de levar a cabo tal empreendimento, ou não atribuíram ao conhecimento do passado a dignidade que lhe é devida.

No que à investigação histórica diz respeito, convém ainda dizer que a História não é uma ciência exacta e que ser isento não é o mesmo que ser neutro. Com toda a frontalidade, APM reconhece, por exemplo, que a “República do Troviscal” é um capítulo “altamente polémico” (1) e que portanto pode ser objecto de diferentes interpretações. A visão histórico-cultural que nos deixou do Troviscal é a “sua” e pode não coincidir, em alguns pontos, com a nossa. Mas manda a verdade dizer que a produziu baseado em documentos e testemunhos. E que não ilude ou omite os factos para afirmar ideologias. Os factos estão lá, apenas os interpreta à sua maneira, podendo outros iluminá-los de modo diferente, mas não necessariamente de forma mais objectiva. Dir-se-á, então, que para se reconhecer a validade de um pensamento se dispensam as afinidades pessoais ou as convergências ideológicas. Importante é reconhecer o talento e os relevantes serviços prestados à cultura e à região, como é o caso.

À minha frente está o texto em que APM anuncia a sua despedida como chefe de redacção do Jornal da Bairrada (2). Recortei-o e guardei-o por várias razões: em primeiro lugar, porque é um marco e um virar de página no itinerário de vida do escritor; depois, porque espelha a lucidez e a sabedoria de quem sabe retirar-se a tempo e não tem medo de dar lugar aos novos; finalmente, porque essa tocante mensagem de despedida é também um comovente hino de louvor à Bairrada que traz no coração. A hemoglobina social e cultural da região percorre-lhe as veias. Uma região da qual conhece as terras e as gentes – que são a sua raiz e alma - como poucos. Arrisco dizer: como mais ninguém.

Dos escritores nascidos na Bairrada, o bustuense Arsénio Mota é para mim o que melhor mostra perceber a importância dos estudos regionais e o que mais contributos tem adiantado para um estudo sistemático da Bairrada. Tem esboçado as grandes linhas de descrição regional e mostrado a importância do regional enquanto escala de abordagem e espaço cultural significativo e dotado de valor e identidade próprios. Já APM é o que melhor tem captado a essência e as subtilezas da Bairrada, assumindo-se como o seu genuíno e mais representativo aedo.

Ao plasmar os motivos locais em algumas das suas obras – recolha de lendas, costumes, folclore, romarias, jogos tradicionais – tem prestado um assinalável serviço à divulgação e afirmação da identidade regional da Bairrada. Mas é sobretudo em alguns livros de ficção, nomeadamente os que albergam contos com indiscutível sabor ao chão, às gentes e ao ambiente da Bairrada – leia-se O Vendedor de Tapetes, ou As Vinhas da Memória – que APM mais se parece cumprir como escritor. É aí que alguns elementos identificadores da matriz bairradina mais se evidenciam: descreve com mestria as manhas, os truques e os ardis do aldeão pacato e curvado ao peso da terra, mas ao mesmo tempo matreiro e astucioso, que ninguém engana quando se trata de defender o que lhe pertence. APM escava uma galeria “de povo arrancado à terra, ao trabalho, aos costumes, à religiosidade, aos impulsos, aos sonhos de que é feita a vida do bairradino” ensinando-nos a ver, “com olhos a um tempo realistas e amorosos, a aldeia portuguesa, que ele soube surpreender a partir do grande conhecimento que tem da região onde vive (3).

À medida que as identidades individuais e colectivas se forem esbatendo por força dos processos de globalização, os livros de APM vão permanecer como testemunho do que foi possível fixar enquanto presença das realidades regionais nas obras literárias e vão ganhar uma nova dimensão: a de uma espécie de relicários da memória, onde poderemos então matar saudades de mundividências que já não há.

É este homem, que tanto nos tem ajudado a respeitar a grande matriz, que o Rotary vai homenagear. Na já extensa folha de serviços prestados à cultura e à região, cabem o poeta de Cidade Perdida ou Baga-Baga; o autor de monografias históricas como Mamarrosa Milenária ou Oiã, Terras e Gentes; o cronista de Tarrafo, um diário escrito sob a emoção da guerra na Guiné, ou de romances de literatura colonial como Cabo Donato, Pastor de Raparigas e Estranha Noiva de Guerra; o perscrutador da alma e das Histórias de Artesãos, que retratou em pinceladas coloridas, num tempo em que o artesanato era uma disciplina importante da escola da vida; o estudioso de Santa Casa, Vida e Obra, livro que ajuda a conhecer melhor mais um pedaço do passado concelhio, a evolução e as personalidades que ajudaram a manter viva a Misericórdia de Oliveira do Bairro; o conhecedor atento das Irmandades das Almas e de outro património religioso, alternando trabalhos como O Préstimo a Caminho de Lisboa, com os Bombeiros de Vagos, ou os Falcões do Cértima; enfim, o jornalista tarimbado, agudo e de observação elegante, da Soberania do Povo e do Jornal da Bairrada, fascinado pela crónica e a reportagem, com vasta colaboração dispersa por muitos outros jornais e revistas.

Apetece dizer, a quem é dono de uma vida assim tão preenchida: não pode dar-se mais quem tanto já se deu por inteiro. Venha de lá a homenagem, que deve ser, tanto quanto possível, uma comunhão ritual, isto é, uma convicção e não uma mera convenção.

(1) Armor Pires Mota, Troviscal. Visão histórico-cultural, Edição da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, 2005, p. 8.
(2) Armor Pires Mota, "Laços de despedida", Jornal da Bairrada, 02.01.2008, p. 2.
(3) Joaquim Correia, recensão a O Vendedor de Tapetes, Jornal da Bairrada, 28.06.2001, p. 12.


domingo, 26 de abril de 2009

Houve gente na Praça

Depois deste post e deste post o MOUVA trouxe gente à Praça:

sábado, 25 de abril de 2009

Em Abril, um gesto

Do teu corpo floriu o gesto inesperado:
deste-me cravos rubros
de Abril
colhidos em qualquer sementeira.

Lembrei a clara madrugada
em que começou a tecer-se a liberdade
de dizer não à mordaça
e à cegueira.

Nesse dia, tinha vinte e um anos.
Não podia ficar em casa,
amor,
aquartelado em cobardias.

De arma na mão
lá fui afinar o coração
ao compasso das mais belas melodias.

Trinta anos depois, os cravos que me deste
rescendem a frutos maduros
e queimam
como desafios sempre acesos.

No gesto anunciaste mais
que a própria liberdade,
driblaste silêncios e medos...

A dizer-me que para o amor não há degredos,
mas sim a redentora claridade.
25.04.2004

"Eu te sinto em flor"

"Eu te lembro assim"

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Domingo há MOUVA na Palhaça

MOUVA - Mercado de Objectos Usados, Víveres e Artesanato, 26 de Abril na Praça de São Pedro, na Palhaça, a partir das 10h00 e até às 15h00....(pelo menos!)
Fique entre nós, a praça agradece e nós? Bem, nós estaremos à sua espera com o acolhimento que os amigos merecem!

Praceta de histórias para crianças - 11h30/14h30
Oficina de Origamis - 14h30
Música e Poesia - ao longo do dia

domingo, 19 de abril de 2009

Poesia da guerra colonial vai ser compilada


A notícia vinha no Diário de Coimbra de 30 de Março passado. Há milhares de poemas dispersos, muitos deles de autores anónimos, alusivos à guerra colonial. O projecto, a cargo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, já tem nome: “Poesia da Guerra Colonial: uma ontologia do “eu” estilhaçado”. Estarão reunidos já cerca de 10 000 poemas. Tratando-se da construção de uma memória nacional, os investigadores referem que este tipo de poesia representou “um veículo importante para a mobilização e para a sensibilização”, aludindo também a uma “dimensão terapêutica da literatura de guerra, que permite afastar traumas e emoções que advêm do conflito”.

O que me leva a trazer aqui este tema é o facto de saber que não foram apenas só alguns nomes consagrados pelo cânone literário que derramaram em poesia as suas experiências de guerra. Na região da Bairrada há certamente gente que tendo passado pelos cenários da guerra de África expressou poeticamente os sentimentos que lhe iam na alma, perguntando-se muitas vezes, quando o perigo rondava: que estou eu a fazer aqui?

A partir dos anos 60 do século passado e até ao 25 de Abril de 1974, aos jovens com 20 anos deparava-se o dilema de ir para a guerra. As alternativas de lhe fugir – que venha o diabo e escolha... – eram a emigração clandestina, normalmente para França, “a salto”, como então se dizia, com recurso ao célebre “passaporte de coelho”; ou então optar pela pesca do bacalhau à linha, nos mares longínquos e gelados da Gronelândia e Terra Nova. Eram estes os cenários de sonho que se deparavam à juventude daquele tempo.

Ir à guerra foi uma experiência traumática para muita gente. Ver morrer amigos despedaçados por uma mina, ou sentir-se só no meio do mato, de um momento para o outro, durante uma emboscada, com a vida no fio da navalha, são coisas que deixam sulcos fundos e imperecíveis na memória e na alma. Mas também não seria mais agradável, para um jovem de 20 anos , sair do lugre estacionado no meio do mar, meter-se sozinho num frágil dóri e rumar aos bancos de pesca, à força de remos ou vela. Afastar-se do barco principal e desaparecer na bruma do amanhecer, enfrentando mil perigos, cercado de nevoeiro cerrado, de frio e de mau tempo, sem recurso a previsões meteorológicas. À hora de voltar, com o pequeno barco carregado, quantos se perdiam e afundavam. Com a bruma cada vez mais cerrada, ecoavam os chamamentos, os assobios, as imprecações, na imensidão do oceano. Cansados da faina, os pescadores recolhiam ao apetecido lugre, onde outros trabalhos árduos os aguardavam: “a degola, destripação, abertura, limpeza e salga do pescado até altas horas da noite, para só depois se poder saborear o caldo quente do rancho e o merecido descanso na estreita enxerga do beliche” (1).

Na guerra em África, nem só os que desertavam eram considerados traidores. Traidores eram também, para o regime de Salazar, aqueles que se rendiam, na certeza de que continuar a lutar, em certos momentos, significava perecer. Aconteceu isso com os ex-prisioneiros da guerra da Índia. Regressados a Portugal, havia ordens para não lhes dar emprego. A ordem era “Morrer pela Pátria” e o governo de então preparava-se já para celebrar a glória póstuma dos soldados sacrificados, pois preferia heróis mortos a prisioneiros vivos. Muitas feridas de guerra continuam por sarar e a poesia vertida da pena de quem a viveu por dentro pode ser uma forma de catarse, de exorcizar fantasmas.

A poesia da guerra colonial, além de acrescentar mais documentos e massa informativa ao acervo já existente, pode dar-nos ângulos de análise até agora pouco conhecidos: a vida no mato a dois passos da morte, o absurdo, o baptismo-de-fogo em época de chuvas, o correio que tarda em chegar, embrulhado em saudade e palavras de conforto da família, da namorada, ou da “madrinha de guerra”, a fome e a sede, o medo frio dos soldados que partem como guerreiros e esperam regressar como heróis e entretanto acabam dizimados num planalto longínquo, a rezar para que alguém os resgate daquele inferno. Gente decepada pelas minas ou desorientada pelo terreno que não conhece. Homens que a guerra, de um momento para o outro, transformou em heróis ou cobardes, farrapos humanos ou criminosos.

Muita gente, na região da Bairrada, esteve na guerra de África. Alguns dos seus filhos acabaram tragados por ela. Quantos dos que sobreviveram e ainda pertencem ao mundo dos vivos não terão escrito algum relato, uma ou outra poesia, ou um diário de guerra? Assim de repente, afloram-me ao pensamento apenas dois autores bairradinos que expressaram os seus sentimentos sobre a guerra de uma forma poética: Carlos Luzio, de Bustos, falecido prematuramente em 2004, e Armor Pires Mota. Bom seria que os seus poemas de guerra chegassem ao conhecimento dos investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra que lideram este projecto, pois têm qualidade para estar representados nessa compilação, o que não deixaria de dignificar a Bairrada.

De Carlos Luzio, de quem os amigos publicaram em 2005 uma edição póstuma intitulada Pescador de Sonhos, transcrevo este poema em memória de um camarada caído: (2)

Uma mina fez crescer a minha revolta
ao ver-te morto ali mesmo a meu lado
Um bom amigo, mas outro pobre soldado
que é obrigado a ir e que não volta
O fumo era muito mas deu para ver a tua dor
O ar tinha o aroma ácido do trotil
embaciava o teu olhar sem vida a dizer adeus
O teu sangue a borbotar, sem nada poder fazer
E senti ódio, sim, ódio, raiva, rancor,
ao ver a tua mão trémula a acariciar o fusil
De que lado estavas tu, Deus
que deixaste que nos treinassem para morrer?

Também Armor Pires Mota nos dá a conhecer as emoções da guerra em Baga-Baga, livro de poemas editado em 1967, fruto da sua descida aos infernos em terras da Guiné. Aqui fica o poema SANGUE:

Carne retalhada de feridas em revolta
E nuvens de poeira.

Caminho (é vermelho o céu, é vermelho o chão)
onde a morte nos rouba, de armas na mão,
sorrateira,
como se fôssemos ladrões ou gentes
sem pátria nem bandeira.

Caminho que conheço, de sangue e raiva nos dentes,
do princípio ao fim
donde irromperão sempre bichos e serpentes...

Sinto medo. E, de arma na mão, fujo de mim.

Esta poesia ajuda-nos, para lá da crueza da guerra, a descobrir os sentimentos por detrás das armas e das boinas militares. Aguarda-se com expectativa a conclusão e divulgação deste projecto de compilação. Há já muita coisa em prosa sobre o assunto. De poesia há muito pouco, pois já se sabe que vende mal. Mas a poesia também pode ajudar – e de que maneira – a escrever a crónica de um adeus português em África.

(1) Boletim da ADERAV, n.º 13, Maio de 1985, p. 9.
(2) Bustos - do passado e do presente, 06.10.2004 (post de Óscar Santos).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Como os Vampiros combatem a crise...

Quatro milhões para executivos da Galp

Os seis administradores que compõem a Comissão Executiva da Galp Energia ganharam em 2008 mais de quatro milhões de euros (2,9 milhões em remunerações fixas e 1,1 milhões em variáveis).

De acordo com o relatório de governo da petrolífera, divulgado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Ferreira de Oliveira, Fernando Gomes, Carlos Gomes da Silva, André Palmeiro Ribeiro e os representantes da petrolífera italiana ENI, Cláudio De Marco e Fabrizio Dassogno, tiveram, em média, um salário mensal da ordem dos 48 700 euros (considerando 14 meses), mais de 1800 euros por dia. Para além deste ordenado, a Galp oferece aos administradores executivos a constituição de um Plano de Poupança Reforma (PPR) que, em 2008, contou com uma contribuição da empresa superior a 90 mil euros por administrador.

A petrolífera decidiu não estabelecer qualquer sistema de prémios ou participação nos lucros. Ainda ao abrigo da política de remunerações actualmente adoptada na companhia, a remuneração dos administradores da Galp Energia inclui todas as remunerações devidas pelo exercício de cargos em órgãos de administração das sociedades do grupo Galp Energia.

O administrador que cessar funções antes do fim do mandato terá direito a uma compensação que será, no máximo, o dobro da remuneração mensal fixa.


+ in Correio da Manhã


Adopção em Portugal: Casos de rejeição persistem

Nos últimos quatro anos (2005 a 2008) terão sido devolvidas às instituições Portuguesas cerca de 80 crianças, de acordo com os dados revelados pelo presidente do Instituto de Segurança Social (ISS), Edmundo Martinho. Na quinta-feira, três crianças que tinham sido adoptadas em 2003 por um casal português foram repatriadas do Brasil, onde estavam aos cuidados da ama, encontrando-se numa instituição em Coimbra.

Segundo Edmundo Martinho, os casos de rejeição de crianças referem-se a processos de pré--adopção. Ou seja, casos de excepção que aconteceram durante o período experimental – cerca de seis meses – em que foi decretada a confiança judicial a um casal depois de uma selecção e que não correu bem. O presidente do ISS sublinha, no entanto, que estes números de rejeições são 'casos de excepção', uma vez que tem havido um aumento do número de adopções com sucesso nos últimos anos.


in Correio da Manhã

sábado, 11 de abril de 2009

Cálice

“Pai, afasta de mim esse cálice”. Esta é a frase bíblica que Jesus Cristo teria pronunciado quando, após o término da Última Ceia, retirou-se para o horto do Getsêmani para orar, já que previa sua Paixão iminente.

«Cálice», de Gilberto Gil em rara parceria com Chico Buarque, composta em 1973, estende a frase: “Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”. Eram ainda os anos da ditadura no Brasil, e a música foi composta numa Sexta-feira Santa, com muita paixão, revolta e contestação. Nesse clima a ideia dos autores foi contrapor a letra com um texto bíblico, até porque naqueles tempos o mote das autoridades era: «Cale-se!»

in http://inaciomorais.multiply.com/

terça-feira, 7 de abril de 2009

[Euro-dúvidas] Porquê Durão de Barro, perdão, Barroso?
















Era uma vez um cidadão - sempre com as suas dúvidas sobre política - diante de uma televisão, a «consumir» notícias atrás de notícias, e a tentar não perder o pé para a alienação e a procurar absorver e interpretar o que vai observando.

Esse mesmo cidadão - português, europeu, global - é informado de que CDS, PSD e, não obstante algumas discordâncias internas (Ana Gomes, Vera Jardim, Vital Moreira e Mário Soares), PS apoiam a reeleição de Durão Barroso à frente dos destinos da Comissão Europeia.

Todas as posições partidárias serão legítimas, se decididas democraticamente, pensa o cidadão. Provavelmente todos os apoios assentam num misto de razões e emoções, admite o natural da coisa. Não lhe parece que o apoio político a quem quer que seja, de facto, aconteça exclusivamente por força da Razão (que, aliás, também tem os seus defeitos).

Por outro lado, o tal cidadão ainda tem a ilusão de que, da presidência de uma instituição cujas decisões afectam todos os europeus, são feitos balanços dos mandatos pelos 27 e, a partir daí, são construídos e divulgados argumentários favoráveis, desfavoráveis ou «de 3ª via» à renovação do seu presente líder e da sua equipa.

É possível que tais argumentários sejam delineados e ampliados nos próximos tempos e espera o cidadão que os media, ao divulgá-los, não revelem apenas os mais básicos pseudo-argumentos e emoções, para este não se sentir enganado, nem partir de pressupostos redutores para formar opinião.

Hoje, ficou a saber, por Paulo Portas (CDS) e por Zita Seabra (PSD), que o apoio de ambos - embora Portas assinale discordâncias fortes de Barroso - se sustenta numa ideia: «é uma honra para Portugal ter um presidente da CE português». Zita Seabra chega a dizer num «frente-a-frente» algo como «antes de europeus, devemos ser portugueses» e não avança muito mais, quando tem mais tempo para argumentar.

Ironicamente, o tal famigerado português apoiado por alguns só por ser um português é o mesmo português que abandonou Portugal, enquanto o «governava»; é o mesmo português que ora esteve na Base das Lajes a sorrir para Bush, Blair e Aznar na «Cimeira da Vergonha» - no arranque da Guerra do Iraque -, ora fez o mesmo ao oponente de Bush, Barack Obama, muito crítico dessa mesma guerra. Ironicamente, este português é o mesmo que propôs que a carga de horário laboral na UE pudesse ir até as 65 horas por semana, uma medida felizmente rejeitada no Parlamento Europeu.

Um cidadão - que tem mais perguntas do que respostas - questiona-se, perante um pseudo-argumento, de cariz nacionalista: porquê tem que ser português? qualquer português serve? porque é que este merece uma segunda oportunidade? não há mais argumentos, além de um patriotismo bacoco e contraditório?

Apoiantes de Durão Barroso à presidência da CE, expliquem - como ele tivesse que votar - ao cidadão confuso que existem outros motivos para a reeleição do Durão Barroso, por favor. Certamente existirão e ele realmente ficou alienado com o desfilar das notícias e perdeu o essencial.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Religião vs Mundo? Religião e o Mundo?

O sociólogo António Barreto escreveu sobre o livro «Um Só Propósito», de D. Clemente, bispo do Porto, um compêndio de homilias dirigido, segundo Barreto, ao ser humano, que está fora e dentro da igreja. Texto integral aqui.

Um excerto:

«Falar com todos, falar para todos, é uma forma de pertencer ao mundo. Mas é sobretudo uma maneira de se sentir empenhado e comprometido perante os outros. Eis uma qualidade que se aprecia em qualquer pessoa, académico ou eletricista, sacerdote ou filósofo, médico ou agricultor. Pensar em si e nos seus é o próprio dos homens, de todos os homens. Pensar nos outros é o próprio dos homens de exceção».

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Foi há 10 Anos


O Boletim de Divulgação, Informação e Reflexão da Palhaça - O Coreto - fez ontem 10 anos. A primeira página do n.0 saiu em Abril de 1999. O texto de apresentação da 1ª pagina dizia o seguinte:

"O tempo avança e com ele avança o sonho do Homem de ser maior, construir, crescer. A Palhaça não é excepção, terra que remonta à época da romanização, cresceu imparável ao longo dos anos. O seu desenvolvimento é fruto do investimento e da dedicação dos que nela vivem. Dos que acreditam que a nossa terra pode ser melhor, ainda maior. Quem escreve que a “Palhaça é terra de progresso” talvez esteja a escrever as palavras certas em linhas direitas, os homens que aqui vivem já demonstraram que “quando um homem sonha, a obra nasce!". Basta olhar os exemplos. O futuro da terra que habitamos é o espelho da vida que vivemos.
O Coreto – Um informativo ao seu dispor numa era de comunicação."


A título de curiosidade a 1ª ficha técnica:
Propriedade: Junta de Freguesia da Palhaça; Responsável: Catarina Pereira; Equipa de Trabalho: Catarina Pereira, Carla Freitas, Gustavo Ferreira, Johny Freire, Pedro Carvalho; Colaboradores: ADREP, Agrupamento 970, J. Freguesia da Palhaça, PAJOV, Museu S. Pedro da Palhaça, Rancho Folclórico; Agradecimentos: Padre Manuel Oliveira, Dr. Fernando Neves; Composição Gráfica: Pedro Carvalho; Fotografia: Catarina Pereira, Gustavo Ferreira; Tiragem: 1000 Exemplares; Impressão: TIPAVE –Aveiro.