terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Achegas para a história da Palhaça. Dr. Manuel Ferreira Rebolo, “Junta de Freguesia da Palhaça” (1)


Feira antiga (Foto: João Reis Anastácio - 1928)

“... É esta freguesia um agregado populacional constituído por seis lugares principais – Vila Nova, Palhaça, Roque, Rebolo, Arieiro e Albergue – e três outros de menor importância – Fonte do Bebe-e-Vai-te, Pedreira e Tojeira. Está situada no extremo Norte do concelho de Oliveira do Bairro, a que pertence, e confina com os concelhos de Aveiro e Vagos. Primitivamente, este agregado populacional fez parte da freguesia e concelho de Soza, da qual foi desmembrado em 1804, data em que foi criada a freguesia da Palhaça, e data também em que ficou a pertencer ao concelho de Oliveira do Bairro.

Em 1869, como corressem rumores insistentes que ia ser extinto o concelho de Oliveira do Bairro, o que efectivamente sucedeu em 21-11-1895, reuniu o povo desta freguesia conjuntamente com a Junta, ficando resolvido pedir a Sua Majestade que esta freguesia fosse anexada ao concelho de Aveiro, o que realmente sucedeu, em 4-12-1872. Esta freguesia pertenceu ao concelho de Aveiro até 13-1-1898, data em que foi restaurado o concelho de Oliveira do Bairro. Pertenceu esta freguesia à Comarca de Anadia até 4-12-1872, passando nesta data para a Comarca de Aveiro, a que ainda hoje pertence.

Diz a tradição que, já na segunda metade do século XVIII, este agregado populacional lançou a ideia da sua emancipação da freguesia mãe – Soza – sendo o óbice principal para esse fim, por parte dos poderes constituídos, a ausência de rendimentos para a sustentação do Culto. E foi assim que um benemérito desta freguesia, Manuel de Oliveira, e sua esposa legaram todos os seus bens à corporação de S. Pedro, erecta no lugar de Vila Nova com o encargo da manutenção das despesas do Culto, inclusivamente com a obrigatoriedade de todos os anos fazer a festa ao Orago da freguesia – S. Pedro. Foi esta corporação que há mais de cem anos criou e explorou o mercado mensal no dia 29 de cada mês.
Dia de festa e procissão
(Foto: João Reis Anastácio - 1928)


A Junta de Freguesia de então, como não tinha outros rendimentos, a não ser os resultantes dos covatos, colectava a confraria de S. Pedro nas importâncias disponíveis por aquela para a manutenção do Culto e isto ao abrigo do artigo 324 do Código Administrativo então em vigor.

Em Janeiro de 1871, foi superiormente extinta a Confraria de S. Pedro por ilegal, sendo a Junta de Freguesia incumbida superiormente de administrar todos os rendimentos da dita Confraria e com os mesmos encargos que àquela tinham sido legados pelo testamento. Em 1869 começou a funcionar a primeira Escola Primária nesta freguesia, sendo o seu primeiro Professor o Reverendo Joaquim Rodrigues de Seabra. Em 1885 foi construído pela Junta o cemitério desta freguesia. Em 12 de Janeiro foi criada a primeira feira dos 12 e foi nesta mesma data que os dois mercados, 12 e 29, começaram a ser frequentados tanto por gado suíno como bovino.

Em 1912, a comissão concelhia de administração dos bens da igreja, e por ordem da comissão central da Lei de Separação, pretendeu apoderar-se dos bens e rendimentos que a Junta nessa data possuía e administrava. A Junta protestou contra esta usurpação e por despacho de Sua Excelência o Ministro da Justiça, como consta do ofício emanado daquele Ministério de 29 de Novembro de 1912 (Parecer n.º 690, sob o n.º 3346) foi esta Junta confirmada na posse dos citados bens e administração de todos os seus rendimentos.

Em 1914, como o terreno então existente para os mercados já era deficiente, a Junta comprou uma parcela de terreno contígua à feira dos cereais. Em 1916, em virtude do desmoronamento da torre da actual igreja, a Junta comprou um pedaço de terreno para o adro e procedeu à reconstrução da dita torre. Em 1919, como o cemitério se tornasse pequeno em virtude do aumento crescente da população da freguesia, a Junta procedeu ao seu primeiro alargamento.

Com o advento da Revolução Nacional (1926), não ficou esta freguesia insensível à onda de melhoramentos que, de então para cá, têm coberto Portugal de lés a lés e assim, em 1928, comprou a Junta o terreno onde hoje se encontram edificadas as Escolas Primárias, o edifício dos Correios e telégrafos e a sua Sede.

Antigo edifício da Junta de Freguesia
(Edição: Museu S. Pedro - Palhaça)

Apesar de a Junta de então pretender, primeiro, construir o edifício das Escolas, teve de dar prioridade à construção do edifício dos Correios, pois que esses serviços funcionavam em casa arrendada e nas piores condições e a Direcção Geral dos Correios e Telégrafos exigiu que para a manutenção daqueles serviços na freguesa fosse aqui construído um edifício próprio, o que a Junta fez em 1929. Em 1930 deu, porém, início à construção, que se prolongou por três anos, devido à sumptuosidade do edifício das Escolas, com todas as suas dependências, que ficou sendo, naquele tempo e para o efeito, o melhor Edifício Escolar do Concelho e um dos melhores do distrito.

Prosseguindo na sua obra de melhoramentos e saneamento da freguesia e, como tanto a feira do gado suíno como a do gado bovino se realizavam no centro da povoação, comprou, em 1933, a Junta terreno em local próprio para a feira do gado suíno e em 1936 para a feira do gado bovino.

Em 1934 procedeu a Junta à captação de águas e construção de lavadouros, com seu respectivo coberto de zinco da fonte da Palhaça. Em 1935 e 36, comprou a Junta terreno para s coradouros da fonte dos Carregais procedendo também à captação de águas e à construção de lavadouros com o seu respectivo coberto de zinco. Ainda em 1935 e 36, para evitar as curvas e contra-curvas existentes na desembocadura da estrada do Rebolo, procedeu a Junta à compra de terreno para uma nova estrada e ao seu respectivo empedramento.

Rua do Rebolo

Em 1936 procede ainda a Junta à compra de terreno para o segundo alargamento do cemitério, tendo este alargamento sido feito para Nascente do cemitério primitivo, pois que o primeiro alargamento foi para Poente.

Em 1937, com o auxílio da Câmara Municipal, procede a Junta à electrificação da freguesia, construindo por sua conta a cabine e fornecendo todos os postes, posteletes e consolas e a mão de obra de todo o pessoal auxiliar para a mesma electrificação.

Em 1938 e 39 procede à construção da fonte e lavadouros do Albergue e à construção dos muros e terraplanagem do cemitério novo, ficando este concluído em Dezembro de 1940. Em 1941 constrói a Junta a sua Sede. Em 1942 e 43 procede à cobertura dos lavadouros do Albergue e à construção dos lavadouros de Vila Nova, do Bebe-e-Vai-te, com as suas respectivas coberturas.

Fonte do Bebe-e-Vai-te

Em 1947 faz a reconstrução a maquedame dum troço da estrada da Pedreira e compra em Vila Nova um edifício para nele instalar o Pároco da freguesia, em virtude da dificuldade que existia de se conseguir, por arrendamento, casa apropriada para aquele fim. Em 1948, em comparticipação com a Câmara Municipal, procede à reconstrução da estrada do Arieiro à Azurveira. Em 1948, 49 e 50 subsidia a Igreja para a construção dum salão Paroquial e de vários outros melhoramentos e reparações na mesma.

Como as barracas existentes na feira se tornassem inestéticas e parte delas ameaçasse ruir, despendendo a Junta todos os anos uma verba considerável na sua reparação, desde há muito que se impunha a sua demolição, o que se fez em 1949. Neste mesmo ano foi construído pela Junta no largo da Feira um coreto, tendo subjacente quatro compartimentos e suprajacente um depósito de água que abastece três fontenários, encimado este depósito por uma estátua ao Padroeiro da freguesia, S. Pedro. Anexo a este “Monumento” foi construído um poço que alimenta aquele depósito de água. Em 1953 constrói a Junta uma fonte na Chousa com os seus respectivos lavadouros.

Coreto (Ano de construção: 1949)
Fotografia: Telmo Pereira (Blogue: Fotos da Palhaça)


Como depois do alargamento do cemitério a capela antiga nele existente ficasse em local inestético, constrói a Junta em 1954-55 uma nova Capela e procede ao ajardinamento da parte do mesmo cemitério destinado à construção de capelas particulares, montando também uma rede de canalização em todo o cemitério, não só para rega do mesmo como para limpeza das campas.
Capela no interior do cemitério
(Construção: 1954-55)

Em 1955 procede à arborização do Largo da Feira, pois que aquele local, depois do desaparecimento das barracas, ficou com um aspecto árido. Neste mesmo ano procede à grande reparação na residência Paroquial. Em 1956 constrói a betuminoso a estrada ao Sul do Largo da Feira e dá um novo aspecto a este Largo, não só rodeando-o com um lancil de cimento, como ainda orientando as barracas móveis nos dias de feira no sentido Norte-Sul”.

(1) Dr. Manuel Ferreira Rebolo, "Junta de Freguesia da Palhaça", Jornal da Bairrada, Ano VII, n.º 165, 17.08.1957
(2) A primeira feira dos 12 foi criada em Janeiro de 1903. Ver O Nauta, 18.01.1906

domingo, 8 de Novembro de 2009

"Tanto quanto sei, imediatamente"


Na conferência de imprensa convocada pelo porta-voz do SED, Günter Schabowski, que pode ler (aqui), deu a “notícia” ao mundo, de uma forma acidental, e fez cair o muro que dividia Berlim e a Alemanha, levando milhares de pessoas até aos postos fronteiriços e a uma noite de mudar vidas.
Depois da pegunta saiu a resposta: "Tanto quanto sei, imediatamente". "Abriu-se" o muro!

sábado, 31 de Outubro de 2009

Inaugurado Centro de Actividades Ocupacionais (CAO)

Fotografia: Pedro Carvalho

Foi inaugurado no dia 25 de Outubro de 2009 o novo Centro de Actividades Ocupacionais. Entre as diversas entidades que nos honraram com a sua presença contam-se Mário João Oliveira, Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro, D. António Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro, Eng.º Celestino de Almeida, Director do Centro de Segurança Social de Aveiro e, naturalmente, o Padre José Augusto Nunes, pároco da freguesia.

A Palhaça esteve em festa. O povo encheu-se de brios e acorreu em grande número, com natural regozijo. Nada do que engrandece a nossa terra nos é indiferente e não é todos os dias que se assiste à inauguração de um equipamento social tão importante para o concelho e para a vida das pessoas portadoras de incapacidade e suas famílias.

O Centro de Actividades Ocupacionais é uma resposta social desenvolvida em equipamento, que se destina a actividades para jovens e adultos de idade igual ou superior a 16 anos. Estamos a falar de pessoas que apresentam incapacidade grave, com dificuldades sérias em exercer, de forma temporária ou em permanência, uma actividade produtiva. Seres humanos que precisam de muito carinho e apoio específico e que por norma não estão abrangidos pelo regime de emprego protegido.

Os principais objectivos a atingir neste tipo de equipamento são: o encaminhamento destes jovens e adultos, sempre que possível, para programas adequados de integração sócio-profissional; o reforço da auto-estima e da autonomia pessoal e social; a interacção com a família e a comunidade, integrando-os em actividades de natureza útil, lúdica e recreativa, para que se mantenham activos e interessados; finalmente, o desenvolvimento das suas capacidades físicas e cognitivas.
Fotografia: Pedro Carvalho

Convém referir que este desenvolvimento de capacidades não pode estar vinculado a exigências de rendimento profissional ou a qualquer tipo de enquadramento normativo de natureza jurídico-laboral. Os produtos que resultam do seu labor produtivo representam um estímulo à valorização pessoal e podem funcionar como factor de integração e visibilidade social, uma vez comercializados em eventos específicos. O produto da venda dos bens produzidos no âmbito do CAO deve ser canalizado para os utentes que os produzem e não para as instituições (n.º 2, art. 10.º do Decreto-Lei 18/89, de 11 de Janeiro). Infelizmente, nem sempre assim acontece.

O CAO tem de assumir-se como um instrumento importante na construção do projecto de vida de cada indivíduo. Isso requer esforços no sentido de se contratar pessoal qualitativa e quantitativamente necessário para se atingir esse objectivo. Há casos em que é importante admitir um Terapeuta Ocupacional, um Terapeuta da Fala, ou um Fisioterapeuta que trabalhem com carácter exclusivo nesta valência. Nem sempre isso é possível, mas o bom deve aspirar sempre ao melhor e este só pode contentar-se com o óptimo. Estamos a falar de uma valência que ao contrário de outras respostas sociais tradicionais requer dinâmicas diferentes de intervenção.

Também os processos destes utentes devem estar organizados de forma a garantir um registo rigoroso em várias vertentes: a psicológica, a social, a clínica, a familiar, ou a educacional. É importante registar a observação sobre o modo como evolui cada jovem ou adulto em concreto. Isto pressupõe o recurso a dossiers individualizados que permitam uma distinção visível dos diferentes conteúdos, de modo a facilitar a sua identificação e consulta.

Enfim, ter um CAO é um privilégio para qualquer freguesia. Ele dá, a quem mais precisa, oportunidades de participação e gera interacções positivas entre pessoas que o frequentam e o meio que as envolve. Esta prática vai para além da perspectiva meramente reabilitativa. Distancia-se do termo «deficiência» e aposta na adopção do termo mais genérico «incapacidade», que engloba os diferentes níveis de limitações funcionais de cada indivíduo em particular.
Fotografia: Pedro Carvalho

O Centro Social Paroquial S. Pedro da Palhaça está a partir de agora dotado de uma infra-estrutura que serve o concelho, consolida o respeito pelos direitos humanos, promove a igualdade de oportunidades e combate a discriminação. O CAO, com capacidade para acolher actualmente 20 utentes, honra a freguesia, dignifica os seus obreiros e privilegia os potenciais utilizadores. E ajuda a combater o estigma social, que o sociólogo Erving Goffman define como sendo a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena.

Se a Praça de S. Pedro é a “sala de visitas” da freguesia, o Espaço Vida – que, além do CAO, vai integrar a Creche, o Centro de Dia, o Lar de Idosos e o Serviço de Apoio Domiciliário, instalações que vão conviver de perto com a ADREP e a futura Escola do 1.º Ciclo - arrisca-se a ser a “jóia da coroa”, um novo pólo de atracção e desenvolvimento da Palhaça a juntar a outros, como a zona industrial, que cresce a olhos vistos.

Um orgulho para os palhacenses. Um prémio para a sua fé inquebrantável e para a sua dedicação sem limites a iniciativas do género. Uma verdadeira locomotiva em andamento, que no caso do Espaço Vida muito deve à perseverança e ao dinamismo do seu maquinista: o padre José Augusto.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

A «Carga de Trabalhos» vai fechar?

Finalmente, a «Carga de Trabalhos», principal e famigerado portal de ofertas de emprego/estágios na área da Comunicação (do Design ao Jornalismo, passando por Relações Públicas, Marketing, Publicidade, Multimedia, etc.), deixa de ser conivente com a falta de ética e com os crimes levados a cabo por algumas - não poucas - empresas que desrespeitavam a lei laboral, rejeitando qualquer publicação de anúncios de empregos ou estágios não remunerados ou de falsos «recibos verdes» ou falsos «estágios curriculares».

O crime, na área da Comunicação (que sucede noutros ramos de trabalho), que remete sobretudo jovens para situações de uma precaridade lastimável e de incógnita, não termina aqui, mas o «Carga de Trabalhos», que estava a perder credibilidade, tomou uma decisão importante, mesmo que notemos que quer passar a ideia de «virgem ofendida», quando andava na cama com anúncios humilhantes (cheguei a ler num «estágio não remunerado, com ajudas de custo e... bolos e café à vossa disposição»).

O trabalho escravo ou em condições indignas não devia ser coisa deste século, como o pintam, em nome de um vago «interesse nacional», determinados senhores demasiado bem instalados na vida para compreenderem certas situações, como o presidente da CIP, o senhor Van Zeller, ou o senhor Belmiro de Azevedo (que querem que o poder económico dirija e determine as opções do poder político). Não me parece que seja assim que a produtividade aumente ou que Portugal consiga ser mais competitivo, como exigem esses senhores.

A ambição de progresso económico é natural, mas se não for sustentada pela responsabilidade social, pela ética empresarial e pelo bem estar dos cidadãos-trabalhadores portugueses, de que serve? A quem serve?

Texto aqui.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Saramago, a Bíblia e uma opinião de Vasco Pulido Valente

Um lamentável texto (1) de Vasco Pulido Valente (VPV) sobre a polémica instalada a propósito do mais recente livro de José Saramago obriga-me, embora contrafeito, a regressar a este tema já aflorado no Palhaça Cívica. Lamentável porque não dignifica o investigador; antes o coloca, neste caso concreto, ao nível do historiador de pacotilha que de facto não é.

Vejamos: começa VPV por dizer que as opiniões de Saramago sobre a Bíblia “são ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto”, numa alusão ofensiva ao passado profissional do escritor, a roçar o elitismo mais doentio, como se todos tivessem que nascer em berço de oiro, como ele. Logo a seguir, outra diatribe: ter oitenta e tal anos, como Saramago, é “coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar”. Pois não: Saramago teve que subir a vida a pulso e nesses tempos árduos em que se forjava o self made man não podia estudar, tinha é que trabalhar. Conheço de sobejo o argumento, mais uma vez a tresandar a elitismo. Frequentei estudos pós-graduados num estabelecimento de ensino onde VPV investiga e lecciona. Como éramos quase todos trabalhadores-estudantes, alguns professores davam aulas com evidente fastio, quase sem nos fitar nos olhos, um frete de todo o tamanho. E porquê? Porque sustentam a peregrina tese de que os estudos de pós-graduação não devem ser para trabalhadores-estudantes, gente sem tempo para investigar e queimar as pestanas na Biblioteca Nacional...

A seguir, lá vem o argumento com a carga ideológica habitual, a invejazinha bem portuguesa, sempre pronta a desvalorizar o mérito alheio: “Saramago ganhou o prémio Nobel, como vários ‘camaradas’ que não valiam nada”. Para o preclaro e iluminado VPV a qualidade literária é coisa que não pode ser imputada a escritores ou poetas comunistas e quejandos. Digamos que as coisas boas e às vezes excelentes que VPV produz - ao contrário de outras lamentáveis, como o texto a que me refiro – aparecem nos intervalos de lucidez do historiador, que é bem mais novo que Saramago. De facto, que classificação merece esta impertinente afirmação: “Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica”.

Saramago não pode. Mas a ele, cronista e historiador ungido pelos eleitos, assiste essa autoridade para arrasar e demolir em farpas violentas – muitas vezes injustas e pouco clarividentes – tudo e todos. Seguindo à letra este raciocínio primário, podemos inferir não estar ao nosso alcance comentar os livros do historiador, por não serem produto nosso, amassado pelas nossas mãos. E assim ficaríamos impossiblitados de lhe dizer, cara a cara, que O Poder e o Povo. A Revolução de 1910, é uma interpretação altamente discutível e metodologicamente impugnável daquele período histórico (2). Ou que narrou os primeiros anos do regime republicano segundo uma óptica parecida com a de Cobb nos seus estudos sobre a Revolução Francesa, escapando-lhe o essencial das reformas indicadas pelos republicanos (3). Na verdade, para VPV a I República foi puro terror, não consegue vislumbrar nela os traços de modernidade que também contém.

Por fim, mas não menos importante, fixemo-nos neste raciocínio: “Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve”. O historiador refere-se ao período em que Saramago, no ano de 1975, esteve à frente do Diário de Notícias e despediu trabalhadores. Sem pretender escamotear esta realidade, conviria avivar a memória de VPV, lembrando-lhe que em todos os períodos revolucionários se cometem excessos. Referimo-nos a períodos de “conjuntura política fluida” e de “incerteza estrutural” (4) caracterizados por situações de excepção, onde é manifesta a aceleração do regime de funcionamento do campo político. Ao contrário do que acontece nos regimes políticos estabilizados, em que funcionam as mediações tradicionais, assistimos neste tipo de conjunturas à confrontação aberta entre novas gramáticas políticas. 


Seguindo à letra o raciocínio de VPV, também poderíamos dizer: depois do que fez no tempo da Inquisição, a Igreja está mesmo entre as instituições que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve. Claro que recusamos liminarmente este raciocínio grosseiro. A Igreja, como as pessoas, também evolui. E só por má fé se pode não reconhecer-lhe, hoje, o importante papel que desempenha nas áreas da assistência e da solidariedade social, ou na inculcação de valores que reforçam a coesão familiar e social, entre outros.


Enfim: no extenso rol das suas certezas inabaláveis, o que VPV às vezes mostra é a mais completa insensibilidade para conhecer e entender o Outro. Mesmo que não concordemos com ele, o que o Outro pensa não pode ser visto com hostilidade ou ameaça, como uma peste. A solução não passa por erguer muros em vez de pontes. A cultura da hospitalidade deve prevalecer sobre a cultura da indiferença ou da guerrilha permanente. O insuspeito filósofo Emmanuel Lévinas via no encontro com o Outro – enquanto ser único e irrepetível - um “acontecimento” ou até um “acontecimento fundamental”, o patamar mais elevado da convivência humana. O padre Carreira das Neves soube fazer isso, no frente a frente com o autor do Memorial do Convento.

Pena que VPV misture coisas sérias com as banais crises hepáticas que por vezes o atormentam e o levam a esgalhar prosa tão ácida, retorcida e deliberadamente provocatória.

(1) Vasco Pulido Valente, “Uma farsa”, Público, 23.10.09
(2) A. H. Oliveira Marques, Guia de História da 1.ª República Portuguesa, Lisboa, Editorial Estampa, 1981, p. 142.
(3) Manuel Villaverde Cabral, Portugal na Alvorada do Século XX, Lisboa, Editorial Presença, 1988, pp. 154 e 262.
(4) Michel Dobry, Sociologie des Crises Politiques, Paris, Presse de la Fundation Nationale des Sciences Politiques, 1992, pp. 40 e 150.


quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Jovens à procura do primeiro emprego são mais vulneráveis

Os jovens à procura do primeiro emprego e os trabalhadores precários ou com baixos salários são encarados pelos portugueses como os novos grupos vulneráveis à pobreza em Portugal, segundo um estudo hoje divulgado.

Estes são os resultados preliminares de um inquérito sobre "Percepções da pobreza em Portugal" realizado pela Amnistia Internacional Portugal em parceria com a Rede Europeia Anti-pobreza e o Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.

O estudo foi feito a partir de uma amostra representativa de 1350 pessoas com 18 anos ou mais e de 19 freguesias seleccionadas aleatoriamente em cada região de Portugal.

Oitenta e três por cento dos inquiridos para o estudo sustentam que há hoje novos grupos vulneráveis à pobreza, com destaque para os jovens à procura do primeiro emprego.

Hoje há uma percepção generalizada de que a situação laboral torna os indivíduos vulneráveis à pobreza, enquanto há 20 anos essa vulnerabilidade era identificada em grupos minoritários como os deficientes, as minorias étnicas e os doentes crónicos.

O combate à pobreza passa assim, na opinião dos inquiridos, pela criação de emprego assim como por investimentos políticos em áreas como a saúde, educação e formação profissional.

No que respeita aos sinais de pobreza, os inquiridos para este estudo mencionam com maior frequência dados como a inexistência de água, luz eléctrica ou casa de banho.

"Podemos dizer que a inexistência de condições mínimas de salubridade continua a ser o indicador de pobreza mais consensual, não havendo ainda menção alargada a formas de pobreza mais modernas", lê-se no estudo.

Uma das principais questões colocadas no inquérito diz respeito à percepção da existência de pobreza em Portugal e uma grande parte da amostra (40 por cento dos inqueridos) considera que metade da população vive em situação de pobreza.

No entanto, apenas uma pequena parte da amostra (6 por cento) classifica a pobreza existente como miséria.

Para a Amnistia Internacional Portugal e a Rede Europeia Anti-pobreza, este estudo indica claramente que é fundamental intervir no domínio da opinião pública e sobre as suas percepções.

"Não podemos esquecer que os conceitos de pobreza e de exclusão social são construídos e delimitados pelo mundo dos que se julgam incluídos. É aqui que é preciso, prioritariamente, actuar, não esquecendo, os 'velhos pobres'", defendem.

As duas organizações defendem ainda que é necessário criar uma cultura social que assuma a sua co-responsabilidade, que entenda que a exclusão é uma consequência dos modelos e das práticas escolhidas e que não é inevitável.

Por outro lado, defendem uma mobilização e participação de todos os actores, em particular dos que enfrentam a pobreza, um fenómeno que atinge mais de 79 milhões de pessoas na União Europeia, entre as quais cerca de dois milhões de portugueses.


in Lusa, via DN

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

José Saramago sobre a «Bíblia»

Era impossível que novo romance passasse despercebido devido ao tema escolhido: Caim e a Bíblia. Ao continuar a sua interpretação bíblica, que o levou ao exílio após o veto ao 'Evangelho segundo Jesus Cristo', o Nobel volta a abanar a estrutura de um dos edifícios que mais o indispõe, o das religiões. As reacções explodiram quando quase ninguém leu 'Caim'

A Igreja Católica portuguesa reagiu em bloco ao novo romance de José Saramago, ainda o livro estava a ser posto à venda nas livrarias. Os primeiros comentários de uma polémica que está longe do seu auge, e das réplicas que decerto provocará, tiveram origem nas declarações que o Nobel efectuou domingo à noite em Penafiel, onde considerou que "sem a Bíblia seríamos outras pessoas. Provavelmente melhores". Depois, endureceu e afirmou: "Não percebo como é que a Bíblia se tornou um guia espiritual. Está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas." Referiu ainda que costuma chamar ao livro sagrado dos cristãos "um manual de maus costumes".

Para José Saramago, Caim "é uma espécie de insurreição em forma de livro", que pretende levar os leitores à reflexão: "Nós somos manipulados todos os dias. Temos de lutar contra isso. Que a leitura deste livro vos ajude a ver o outro lado." Um conselho do autor do já polémico Evangelho segundo Jesus Cristo, que, garante, não é contra Deus que escreve: "Até porque ele não existe. É contra as religiões." Porque não servem para aproximar as pessoas nem nunca serviram, explica.

As reacções a Caim serão bastantes e diversas e uma das primeiras foi observada no presidente da Câmara de Penafiel, antigo seminarista, que se manteve impávido, evitou a polémica e só disse: "Respeito as opiniões de cada um. Não me atreveria a criticar as suas convicções. Quanto às minhas, guardo-as para mim", disse Alberto Santos.

O escritor não foi apanhado de surpresa pelas reacções imediatas ao seu novo livro. Questionado pelo DN sobre a rapidez da resposta da Igreja, considerou: "O que me surpreende é a frivolidade dos senhores da Igreja. Não leram o livro e vieram logo, com insólita rapidez, derramar-se em opiniões e desqualificações, tanto da obra como do seu autor. Como falta de seriedade intelectual, não se poderia esperar pior. Compreendo que tenham de ganhar o seu pão, mas não é necessário rebaixarem--se a este ponto."

Em resposta à acusação de D. Manuel Clemente sobre a sua "ingenuidade confrangedora" sobre a Bíblia respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio. Para mistificações não contem comigo."

Também não evitou comentar as afirmações do porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, que sugeriu "ser uma operação de publicidade" dizer mal da Bíblia: "O padre Manuel Morujão já disse que a leitura de Caim não é uma das suas prioridades. Agradeça-se-lhe a franqueza. Estranha coisa, porém, é um porta-voz que não sabe de que está a falar."

Inquirido ainda sobre se este regresso a um tema religioso denotava uma fixação, José Saramago foi claro: "É um motivo de reflexão, não uma fixação." Depois de ter escrito sobre a Bíblia, só faltava saber se pretende futuramente escrever sobre o Alcorão, ao que respondeu: "Não está nas minhas intenções, mas nunca se sabe."

Uma coisa é certa, pela quantidade de autógrafos dados em Penafiel, Caim não vai cair no esquecimento dos fiéis de Saramago.


in DN

domingo, 11 de Outubro de 2009

Eleições autárquicas na Palhaça: a emergência do feminino

É nas eleições autárquicas que encontramos uma maior proximidade entre eleitores e eleitos. Nas pequenas freguesias até conhecemos os candidatos e, em muitos casos, mantemos com eles relações de amizade, proximidade e vizinhança. Se essa proximidade já nos agrada, é ainda maior o regozijo quando assistimos a uma participação crescente das mulheres na vida política da nossa terra. Cresce a esperança de novos rostos, de vermos um pouco mais humanizado o poder e um pouco mais diligente o cuidado do outro.

A participação das mulheres na política e a acção transformadora que podem exercer é uma aquisição muito recente em Portugal. Começa praticamente com a revolução de 25 de Abril de 1974. Antes disso, muito caminho foi trilhado, num tempo em que, confinadas ao lar, lhes estava exclusivamente reservado o papel de esposas e mães. Tiveram que lutar e protestar para fazer ouvir a sua voz e reclamar direitos cívicos e políticos, o mesmo é dizer, dignidade e emancipação, instrução e participação activa na sociedade.

Há precisamente cem anos, Ana de Castro Osório apresentou ao Congresso Republicano de 1909 uma proposta para que fosse consagrado no respectivo programa a questão do voto feminino. Instaurada a República no ano seguinte, o Partido Republicano esqueceu rapidamente as “amplas liberdades” que prometera no tempo da Monarquia. Apesar de nas Constituintes muitos deputados terem visto no direito de voto das mulheres uma proposta justa, apenas três tiveram a coragem de publicamente manter as suas afirmações (1). Já vem de longe quem nos empurra, quando falamos em compromissos rasgados ou promessas por cumprir. O que choca, a esta distância, é a insensibilidade dos políticos da época para resolver o problema.

Em matéria de voto feminino, muito somos devedores – homens e mulheres – à médica Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a exercer o direito de voto em 1911. Como era viúva, teve artes de aproveitar uma lacuna da lei, que conferia direito de voto aos “chefes de família” (figura jurídica entretanto abolida da Constituição da República) mas sem especificar o sexo dos mesmos. Ora Beatriz Ângelo era “chefe de família” e assim deu um empurrão importante na luta pelo direito ao voto feminino. A incomodidade foi tanta que a lei acabou por ser mudada logo a seguir, para que casos idênticos não viessem a repetir-se.

As mulheres da Palhaça que integraram listas partidárias, e por maioria de razão as que as encabeçaram, como aconteceu com as do PS e do CDS, estão de parabéns. Atreveram-se a dar a cara e a desafiar preconceitos, numa terra em que são ainda visíveis algumas representações tradicionais sobre o papel que devem ter na sociedade. A crescente inserção no mercado de trabalho deu às mulheres outra independência e legitimidade para intervir. Ainda bem que assim é. É tempo de se valorizar o que são capazes de fazer em vez de esperarmos que sejam perfeitas – como se fosse possível aos seres humanos ser perfeitos... – uma estratégia cínica que só serve para as diminuir. É um acto de inteligência reconhecermos a sensibilidade e o voluntarismo que denotam para as causas sociais, ou a riqueza de experiências e realidades vividas de que são portadoras.

Mais do que ficar à espera dum sistema de cotas e leis da paridade, as mulheres - e os homens que com a razão da sua luta se identificam - devem continuar a pugnar pelos seus direitos. Convém não embarcar em lugares-comuns generalizados, na lengalenga dos que dizem que as mulheres são melhores em tudo, que são elas quem manda em casa, que exibem um maior quociente emocional, que com o tempo lá chegarão (ao poder), que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher (quase sempre anulada, para que o homem brilhe...) e outras larachas do costume. Nada de mais falacioso neste discurso masculino que mais não faz que perpetuar, ainda que de um modo subliminar, diferentes formas de dominação. Como se houvesse um determinismo de género no exercício do poder. As mulheres não têm que estar atrás ou à frente dos homens. Devem caminhar a seu lado. Não tanto por uma questão de igualdade, mas como forma de afirmar a sua identidade e diferença e abolir desigualdades. Sim, porque como costumava dizer Maria de Lourdes Pintasilgo a igualdade perfeita não existe apenas na lei e nas formas, mas na vida toda.

As eleições são um jogo onde uns ganham e outros perdem. Mas participar já é ganhar. As mulheres da Palhaça que de forma corajosa se envolveram na disputa eleitoral autárquica saem vitoriosas desta contenda, qualquer que tenha sido o resultado. Há que lhes dar os parabéns. E se por causa da sua condição de mulheres algum arrufo de discórdia ou alguma atoarda integrista lhes foi arremessada durante a campanha, isso significa que a crescente exposição pública a que voluntariamente se submetem está a incomodar os habituais velhos do Restelo e que a melhor forma de apressar o tempo da igualdade de oportunidades é intervir socialmente.

As mulheres na política melhoram a qualidade da democracia e conferem-lhe uma nova dimensão: uma representatividade nos órgãos eleitos mais conforme à composição da sociedade. Se as diferentes comunidades são compostas por homens e mulheres, que razões ou argumentos impedem que quem as representa politicamente sejam homens e mulheres?
Responda quem souber...

(1) João Esteves, As Origens do Sufragismo Português, Lisboa, Editorial Bizâncio, 1998, p. 73.

sábado, 10 de Outubro de 2009

Uma reflexão sobre «Baraka» (filme de Ron Fricke, 1992)



«Baraka» («espécie de poder espiritual hereditário», para certos sectores islâmicos do continente africano) é um ensaio multimedia arrojado, que coloca em perspectiva a diversidade e as contradições da natureza do homem, da natureza em si, e da natureza das relações humanas.

Expõe diferentes dinâmicas e ritmos do Universo, através de uma estética e sonoplastia poderosas (a música de uns Dead Can Dance não será um incidente, a ausência de um guião literário é uma virtude). Confronta-nos, ainda, com um dilema da estética: por um lado, a beleza da exaltação dos fenómenos naturais e dos ritos e rituais humanos, por outro, a beleza do apocalipse e da mecanização. Neste sentido, «Baraka» poderá ser um objecto artístico perigoso, se o receptor da mensagem não reflectir, não discernir, dentro da sequência de beleza compulsiva, uma qualquer moralidade, por vezes secundada pela estética. O desafio está, para o espectador mais exigente, nessa procura. O deslumbramento não chega para disfrutar, porque cega.

Há imagens marcantes, neste «documentário» amplo sobre a vida, o Homem, a sociedade, as religiões, as crenças e a economia, que petrificam: os loops do homem a trabalhar as máquinas, como se fosse exactamente uma máquina, como se o processo alucinante de produção industrial se confundisse com o processo de maquinização do homem; os pintaínhos a serem tratados como um qualquer produto de consumo desenfreado e descartável, espécie de peluches comestíveis; o hipnotismo, o mistério e a sincronia audiovisual de alguns rituais de tribos em paisagens remotas e quase virgens; ou a imagem da penúria e da procura de alimento, por vacas junto a mulheres e crianças, no meio de uma lixeira astronómica; a queda de uma árvore a devastar, a desequilibrar parte considerável do ecossistema circundante.

Enfim, «Baraka» é um buraco fundo, por descobrir e cobrir.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

O TGV, o “perigo espanhol” e uma polémica de 1853.

Propositadamente, este texto só vem a lume depois das eleições legislativas. Para que não se diga que Palhaça Cívica andou a interferir na campanha eleitoral. Não queremos um blog de partido, mas também não queremos que se tire partido do blog.

Assistimos, nos dias que correm, sempre que se fala da linha de alta velocidade, ao esgrimir de argumentos que remetem para o marulhar de outros tempos. Para o longínquo ano de 1853, como adiante se verá. Quando as solas da imaginação se rompem, o remédio é recuperar alguns registos antigos de inspiração alheia.

Vem isto a propósito do que Manuela Ferreira Leite afirmou no recente debate televisivo que travou com José Sócrates a propósito do TGV: que Portugal não é uma província espanhola. Assim mesmo. O que está aqui em causa não é um respeitável e diferenciado ponto de vista sobre os méritos ou deméritos da linha férrea de alta velocidade. O assunto é polémico e tem causado naturais clivagens entre as diversas forças políticas. A uns interessará mais o investimento público, a criação de empregos e a oportunidade de negócios; outros argumentarão que há países que continuam a dispensar o TGV e nem por isso deixam de ser evoluídos e modernos.
Nada de mal quando se discutem concepções de sociedade e modelos de desenvolvimento. São diferentes maneiras de tentar melhorar o destino de Portugal. Coisa bem diferente é o aceno explícito ao populismo, o resvalar para os tortuosos caminhos da demagogia, o reacender de velhos mitos nacionalistas (de Espanha, nem bom vento nem bom casamento). Foi por aí que enveredou Manuela Ferreira Leite ao agitar o papão do “perigo espanhol”.

É assim irresistível não falar do que se passou em 1853. Também nessa altura, ao discutir-se a criação dos caminhos de ferro, se atearam as labaredas da polémica. Como refere Maria Filomena Mónica, o que estava em causa, em 1853, “era já a ligação à Europa” quando os comboios eram vistos como “o símbolo por excelência do Progresso”(1). Tudo era diferente, mas tudo parece igual. Em 1853 a Europa mais evoluída já se afastara bastante de Portugal, que nem sequer tinha uma rede viária ou ferroviária de ligação a Espanha. A crença na possibilidade de desenvolver o País e acabar com o isolamento passava pela construção de estradas, caminhos de ferro e portos. A polémica entre Alexandre Herculano e Lopes de Mendonça ficou célebre, por revelar duas atitudes opostas: dum lado, a visão mais conservadora e representativa de um mundo em vias de extinção, protagonizada por Herculano; do outro, a visão modernizadora de Lopes de Mendonça, para quem a abertura à Europa passava pela construção de uma rede viária ou ferroviária. Como pano de fundo pontificava a recorrente obsessão com a identidade e a independência nacional.
Repare-se nos argumentos de Alexandre Herculano: “Os caminhos de ferro tendem a destruir as divisões entre os povos, a uniformizar as ideias e os costumes e a igualar as diversas civilizações. As antigas autonomias vão desaparecer: vão destruir-se todas as formas de separação conhecidas. Sob este aspecto, os diferentes povos vão constituir, num futuro talvez mais próximo do que supomos, uma sociedade única” (2).

Como se vê, para Herculano o comboio era o coveiro das pequenas nações. O caminho de ferro, na ausência de uma enérgica descentralização administrativa, conduziria à importação das ideias e produtos estrangeiros e fazia perigar a independência nacional, empurrando-nos para uma mais que possível “fusão” com a Espanha. Já para Lopes de Mendonça a construção do caminho de ferro e a ligação a Espanha aproximava-nos da Europa e ajudava a derramar sobre o País o progresso material que por cá se mantinha ausente.

Tal como hoje acontece com o TGV, outro ponto importante da discussão dizia respeito ao financiamento das obras públicas. Teria a sociedade portuguesa dinheiro para construir o caminho de ferro sem o contributo do Estado? Herculano assumia a posição do liberal clássico, para quem a sociedade deve fazer o mais que puder, deixando ao Estado a segurança das populações. Esta polémica – tal como a que gira hoje em torno do TGV – revela duas atitudes opostas face à modernização: a da defesa de um estado mínimo e da liberdade privada, protagonizada por Herculano, para quem a liberdade e a moral precedem os melhoramentos materiais; e a de Lopes de Mendonça que entendia o patriotismo como devoção ao estado nacional e identificava a descentralização municipalista (tese cara a Herculano) “com a prepotência dos caciques de campanário”.

Um outro curioso ponto de contacto entre esta polémica de 1853 e a actualidade tem a ver com a velha rivalidade entre Porto e Lisboa. Hoje discute-se se é mais vantajosa a ligação a Espanha a partir de uma ou outra cidade. Em 1853 o Porto “temia que a capital e o seu porto se agigantassem ainda mais graças ao incremento do comércio com o país vizinho, deixando o Norte abandonado a um inexorável definhamento” (3).

Digam lá se os argumentos esgrimidos há mais de 150 anos estão ou não estão na ordem do dia. A atitude subjacente a estes textos de Herculano e Lopes de Mendonça não podia ser mais actual. Vale a pena lê-los e familiarizarmo-nos com eles. Está lá tudo. É só trocar caminho de ferro por TGV, ou por Internet, ou por globalização. Mas o que separava irremediavelmente estes dois homens é muito mais que o caminho de ferro. São duas concepções antagónicas de Estado e da liberdade que reflectem a tensão, nunca inteiramente resolvida ou superada, entre democracia e liberalismo.

Também o que separa hoje os que são pró e contra o TGV é muito mais que a linha de alta velocidade em si mesma: é sobretudo a maior ou menor confiança no papel do Estado para conduzir a sociedade e os destinos do País; o maior ou menor receio de correr riscos, sendo certo que o conservadorismo se cola mais aos que, não desdenhando o progresso, o desejam sem os habituais incómodos da mudança. Um dos elementos da retórica conservadora é a perversidade, que assenta no postulado segundo o qual as acções de mudança provocam efeitos não esperados, ou o contrário do que pretendiam (os chamados efeitos perversos) que contribuem para a não realização dos objectivos da acção. Outro elemento é o risco, que sublinha que os custos da mudança são de tal monta que podem comprometer as conquistas já alcançadas. (4). Como disse um dia a jornalista Helena Matos, o “não” à obra, seja ela qual for, é o não a um mundo que não sabendo como se mudar se prefere manter assim.
Por mim, arrisco uma tese bem mais peregrina sobre o TGV. Discordo da ligação Porto-Lisboa mas não rejeito as ligações a Espanha, quer a norte quer a sul. Não vejo nisso qualquer cedência aos espanhóis, nomeadamente às suas pretensões hegemónicas na península. Valorizo tudo o que combate o isolamento e o “orgulhosamente sós”, com o que isso implicou noutros tempos de vida miserável generalizada a grande parte da população, além de um evidente atraso civilizacional. O dilema parece ser este: ou continuarmos um País pobre, resguardado das ameaças à sua nacionalidade, ou avançarmos para um progresso material que obriga à formação de espaços económicos e políticos tendencialmente uniformizadores e onde as nacionalidades se diluem.

Mas a razão mais ponderosa desta minha opção é outra: será que Portugal ficará mais rico sem o TGV? Seríamos mais ricos sem as auto-estradas que temos? Teríamos escapado da crise e da cauda da Europa sem o Centro Cultural de Belém, sem a Expo 98, sem o Euro 2004?

É de crer que não. Pobres por pobres, agarremos as oportunidades. Portugal lembra-me sempre o triângulo das Bermudas, onde desaparecem coisas de forma insólita, como barcos e aviões. Ali há dedo de extraterrestres, dizem os mais avisados. Já em Portugal é o dinheiro que desaparece, torna-se volátil, esfuma-se, dissolve-se no ar, escapa-se não se sabe bem para onde. Se não for para o TGV vai parar a outro buraco qualquer, há-de desaparecer sem deixar rasto ou marca visível. Um verdadeiro poço sem fundo.

Os extraterrestres do nosso atraso sempre adiado são os suspeitos do costume. Pena é que não encontremos forma de os substituir por outros mais capazes e confiáveis. E daqui não saímos, enquanto continuarmos amarrados a preconceitos atávicos e a despertar fantasmas do século XIX no Portugal europeísta do século XXI.

(1) Maria Filomena Mónica (org. e prefácio), A Europa e Nós: Uma Polémica de 1853. A. Herculano contra A. P. Lopes de Mendonça, Lisboa, Instituto de Ciências Sociais/Quetzal Editores, 1996, pp. 7-8.
(2) Alexandre Herculano, Opúsculos, Tomo I, Questões Públicas. Política, Lisboa, Livraria Bertrand, 1983, p. 359.
(3) Maria de Fátima Bonifácio, “Diferente, igual”, Expresso (Cartaz), n.º 1233, 15.06.1996, p. 27.
(4) Albert O. Hirschman, O Pensamento Conservador. Perversidade, Futilidade e Risco, Difel, 1997.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Eleições Legislativas - Resultados na Palhaça

PPD/PSD
52,93%
795 (votos)

CDS-PP
23,10%
347

PS
11,72%
176

B.E.
4,99%
75

PCP-PEV
1,07%
16


MMS
0,60%
9


PCTP/MRPP
0,33%
5

PPM
0,27%
4

MEP
0,27%
4

PND
0,20%
3

P.N.R.
0,20%
3


MPT-P.H.
0,13%
2


PPV
0,07%
1


Abstenção na Freguesia de Palhaça:
Não Votaram 960 ( Apurados: 2.462 )
38.99%

Nulos: 25 (1,66%) |

Brancos: 37 (2,46%)

Eleições Legislativas 2009 - Resultados Nacionais

Futura composição da Assembleia da República:

PS – 36,6% (96 deputados)

PSD – 29,1% (78 deputados)

CDS-PP – 10,5% (21 deputados)

BE – 9,8% (16 deputados)

CDU – 7,9% (15 deputados)


Abstenção: 39,4%


Mais pormenores aqui.

domingo, 27 de Setembro de 2009

Jorge de Sena (1919-1978): as flores tardias da admiração nacional

Regressar à Pátria seria o seu maior desejo, mas acabou por morrer no exílio. Só então apareceram os incondicionais defensores do seu regresso. A trasladação dos restos mortais de Jorge de Sena para Portugal foi dolorosamente adiada pela incúria do costume. É talvez a derradeira tentativa de reconciliar um dos portugueses mais cultos e civicamente mais desassombrados do século XX com a Pátria que lhe foi madrasta. Pasme-se: tudo aconteceu trinta e um anos depois de a Assembleia da República ter exprimido por unanimidade - três dias após a sua morte, em 4 de Junho de 1978 - uma recomendação para que os despojos do escritor viessem para Portugal. Tanta água correu já debaixo das pontes que, a estes anos de distância, o voto de pesar daquele órgão de soberania soa um pouco a voto piedoso de mero oportunismo político.

Não foi possível regressar em vida, mas o seu corpo repousa agora na terra portuguesa que tanto amou e ilustrou. Amou, sim, porque as suas muitas iras contra o país eram uma espécie de ternura do avesso; porque se pode ter razão na cólera quando se tem razão no amor, como afirmou Vergílio Ferreira. O azedume e o ressentimento gerados pela sua condição de emigrante forçado eram indisfarçáveis. Quando, em 1978, alguns amigos equacionaram a possibilidade do seu regresso, respondeu de forma desassombrada, numa entrevista concedida a Arnaldo Saraiva: não pedi, não peço e – mais – não aceito (1). Eis uma das muitas imprecações do escritor que falava na “desgraça de nascer num país que se empequenece irremediavelmente” (2).

Longe da Pátria, Jorge de Sena nunca foi um espectador da vida. Sempre irrequieto e interveniente, jamais deixou de ser uma presença constante na cultura portuguesa. Como queria viver em voz alta, foi para o exílio ensinar o muito que sabia e que por cá lhe era negado: primeiro no Brasil; depois nos Estados Unidos, onde foi professor catedrático na universidade de Santa Bárbara, na Califórnia. Aí morrerá prematuramente, com 59 anos, vitimado por um cancro do pulmão. Aconteceu num ano de 1978 demasiado funesto para a literatura portuguesa: além de Sena, desapareciam também do nosso convívio Vitorino Nemésio e Ruy Belo.

Foi no estrangeiro que produziu grande parte de uma obra fecunda e variada, com incursões na poesia, no ensaio, no teatro, no conto, na tradução, na crítica literária e na história da literatura, entre outras. Na muito vasta e a vários títulos notável obra do autor de Andanças do Demónio avulta também a copiosa troca epistolar com personalidades de reconhecido mérito na cultura portuguesa como são Eduardo Lourenço, Guilherme de Castilho, José-Augusto França, José Régio, Sophia de Mello Breyner ou Vergílio Ferreira. O correio era-lhe vital. Essas cartas de tempos cinzentos são, por assim dizer, o seu Diário; permitem conhecer melhor a sua personalidade e enorme capacidade de trabalho, os seus pensamentos e mágoas, a inteligência fulgurante, o estilo torrencial, o talento da sua escrita e a vastidão da sua cultura humanista e universalista, que não cabia nos frágeis caixilhos de um ambiente fechado como era o do Portugal do seu tempo de exílio.


Jorge de Sena lutou contra a morosidade e o descaso dos editores portugueses. Contra a falta de atenção à sua obra, que muito o feria por acreditar na força daquilo que publicava. Contra as injustiças de uma universidade conservadora que se negava a reconhecer as suas capacidades. Foi um homem que nunca se poupou, que sempre deu a cara, que teve a coragem de falar alto com inteira lucidez e desassombro. Cercado de adversidades, nunca foi ruminar desânimos e frustrações na Vale de Lobos do costume. Viveu intensamente e com paixão, sempre pronto a estragar a festa nacional, o nacional porreirismo, e a zurzir nos videirinhos do costume, a “canalha” e a “lítero-cambada”. Ripostava frontalmente, quase sempre com uma agressividade que muitos consideravam inútil, porque excessiva. Homem de eriçada sensibilidade, apetece dizer que se comprazia nessa situação de “mal amado”, sempre pronto a ferir a epiderme dos acomodados e insigne-ficantes das letras portuguesas. O Reino da Estupidez é uma sátira feroz onde mostra não transigir com a mediocridade e distribui vergastadas dolorosas na falsa erudição e na superficialidade de muitos falantes da mesma língua. O prólogo desta obra alude à sua “prosa mais áspera, mais amarga ou mais irónica” (3). Por muito amar a cultura é que se tornava impiedoso com os responsáveis pela sua contrafacção.


Embora tardiamente, faz-se justiça, com algum sabor de rendição (reconhecimento) para quem nunca se rendeu. Sena está entre nós, para sempre. Mais do que a uma mera convenção, assistiu-se à reconciliação definitiva de Portugal com um dos vultos mais inteligentes e cultos, e ao mesmo tempo mais incómodos (agora já um pouco mais cómodo...) da cultura portuguesa contemporânea. Na cerimónia religiosa da Basílica da Estrela estiveram de mãos dadas o sentimento e a admiração pela figura de Jorge de Sena. Repartição do pão justo e necessário, sem o habitual e sempre suspeito carpideirismo nacional.

Entretanto, muito ainda há a dizer sobre a sua rica, extensa e multifacetada obra. Jorge de Sena é uma espécie de argonauta intelectual sem paralelo entre nós. Apetece deixar aqui o recado de Eduardo Lourenço: “Quem já o leu que o releia e quem o não leu se meça linha a linha com o mais provocante e menos complacente dos nossos ensaístas” (4). Na verdade, a obra que nos lega – embora com a marca da controvérsia - é mais que suficiente para o manter vivo por muitos e muitos anos. O futuro há-de fazer-lhe justiça, vingando a dolorosa indiferença que os seus contemporâneos, com raras e honrosas excepções, sempre lhe devotaram. Repetindo o que Pessoa fazia o Alberto Caeiro dizer, não é possível que a gente faça o que faz para nada.

Embirro solenemente com homenagens enfatuadas ou rituais comemorativos em aniversários ou missas de sétimo dia, num tempo em que tudo é “histórico” e tudo e todos se comemoram, quase sempre sem nenhum merecimento. Mas este reconhecimento anda arredio a tais critérios. É justo e mais que merecido. Os que já tiveram o privilégio de ler Jorge de Sena não têm qualquer dúvida sobre isso.

Parece ter acabado, enfim, a duradoura conspiração de silêncio, o verdadeiro escândalo pelo qual todos somos, de certo modo, responsáveis: a morte e o exílio de Jorge de Sena fora de Portugal.

(1) O Jornal da Educação (n.º 11, Abril de 1978).
(2) Jorge de Sena/José-Augusto França, Correspondência. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007.
(3) Jorge de Sena, O Reino da Estupidez, Lisboa, Edições 70, p. 11.
(4) Eduardo Lourenço, “O último Sena”, Expresso, 11.01.1975.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Eleições - Outras vozes

PS, BE, CDU, PSD e CDS dispensam apresentações.

Ficam, abaixo, resumidas algumas das ideias dos outros partidos/coligações concorrentes às eleições legislativas de domingo, regra geral, menosprezados pelos media.


Dez à procura de um deputado

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

MOUVA 27/9: «Passem Por Nós no Coreto»

Mercado MOUVA encerra ciclo de 6 meses este domingo

Chega ao fim, este domingo, a primeira temporada da série MOUVA (Mercado de Objectos Usados, Víveres e Artesanato), um evento que tem assentado arraiais, no último domingo de cada mês, desde Abril, no Largo de São Pedro, na Palhaça. No encerramento, três momentos musicais, jogos, massagens, animação de rua, ioga do riso e espaço para crianças alinham no menu cultural e recreativo. Aos curiosos, a organização, os artistas e os vendedores apelam: «Passem por Nós no Coreto», ou participem, nas vendas ou artisticamente.

Era uma vez um «mercado-mais-do-que-mercado», aberto ao comércio sustentável, ao lazer, à saúde e à cultura, criado com o intuito de dinamizar uma praça, de reunir pessoas de diferentes idades e interesses, e deixar algumas marcas através das artes (música, poesia, fotografia, cinema, etc.). Eis a história do MOUVA, na Palhaça. Do artesanato urbano a tradicional, filatelia e numismática, passando por produtos agrícolas frescos, brinquedos, quinquilharias, antiguidades, bijuteria, limonada, doces, pão, música, filmes, roupa - de tudo um pouco tem passado pelo certame.

As montras de venda e as mostras de artes mantêm o espírito dos mercados anteriores, mas há apostas novas a reter: Ioga do Riso; música swing, numa performance interactiva comandada pelo saxofonista Henrique Portovedo; fado ligeiro, com António Fardilha e Fernando Bardot; um espaço-projecto de pinturas faciais chamado Pimpidu; uma performance centrada no corpo («Humanimalidades»); e um Espaço Encantado, um local de arte e massagens. Repescagens, também as há, para quem não teve oportunidade de assistir às suas actuações: BD (duo local de violino e guitarra) e os Palhatrapos («uma dupla de palhaços-músicos, divertidos e coloridos, o menino nos sopros e a menina na percussão»).

Em dia de eleições legislativas, a organização do MOUVA propõe um referendo sobre a continuidade deste evento. O MOUVA é de quem por ele/ali se move. Apareça. Entrada livre. Entre as 10h e as 17h, no Coreto de S. Pedro.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Curiosidades de uma viagem a Malta


1. Ir de férias é deixar para trás a floresta cerrada dos dias iguais e arrastados do trabalho, a rotina que cerca e encharca até aos ossos. Partir significa estar mais perto do desejo, acalentado ao longo do ano, de passar momentos diferentes, menos monótonos e repetitivos. De certo modo, as viagens reconduzem-nos a um tempo há muito perdido: o da leveza dos dias sem horários para cumprir, sem pressas ou compromissos. Tempo de inteira liberdade, de regresso ao castelo encantado da infância, onde habita a matéria de que são feitos os sonhos e os segredos mais temerários. Ao viajar soltamos o pé do lodo da vida. Iludimos o labirinto dos lugares habituais. Vamos ao encontro de um outro para quem também somos o outro.

2. Sem que nada o fizesse prever, este ano aconteceu-me ir a Malta. Da ilha – dito de modo mais correcto: do arquipélago encravado entre a Europa e a África, no Mediterrâneo central – conhecia vagamente a situação geográfica e ouvira falar, também de forma vaga, dos célebres Cavaleiros de Malta. Associava até o nome do país ao título de um livro de Dashiell Hammett, O Falcão de Malta, um policial famoso inspirado nos cavaleiros que pagavam um imposto anual de um falcão vivo ao rei de Espanha. Era tudo, e esse tudo era tão pouco, o que sabia de Malta...



3. Regressa-se sempre, naturalmente, mais enriquecido. No bornal dos conhecimentos históricos guardo notas sobre algumas civilizações que ocuparam as ilhas desde tempos imemoriais: cartagineses e romanos, bizantinos e muçulmanos, normandos e espanhóis, franceses e britânicos (as 8 pontas da cruz que é símbolo dos Cavaleiros de Malta correspondem a outras tantas línguas originais da Ordem); sobre estes cavaleiros, aprendi que construíram Valetta, palácios e fortificações, e que derrotaram os turcos que os cercaram no século XVI, desferindo um golpe fatal nas pretensões muçulmanas no mediterrâneo central.


Como curiosidade, e a atestar a presença portuguesa nos quatro cantos do mundo, encontrei, com alguma emoção, uma placa comemorativa afixada num aqueduto em La Valetta onde pode ler-se: “Em memória do almirante Marquês de Niza e dos marinheiros portugueses sob o seu comando, que morreram combatendo lado a lado com os malteses durante a insurreição popular de 2 de Setembro de 1798 contra o domínio francês”.


De facto, Napoleão conquistara Malta em 1798. À semelhança do que aconteceu em Portugal durante as invasões francesas, tudo o que era valioso foi pilhado pelos ocupantes. Os malteses revoltaram-se e pediram ajuda aos britânicos. Os portugueses, embora em menor número, também deram o seu contributo para derrotar os franceses.

4. Visitar palácios e templos, igrejas e catedrais; povoações piscatórias com seus barcos tradicionais de cores vivas, a balouçar na baía azul e um mercado diário que lembra muito a feira da Palhaça, pois para lá do peixe fresco vende-se todo o tipo de roupas, produtos hortícolas, CDs, lembranças e óculos de sol, entre outras bugigangas; saborear a gastronomia local; aceder às várias ilhas em excursões de barco ou através do ferry; conhecer praias de água cristalina, que convidam ao mergulho retemperador quando o sol dardeja raios inclementes que nos mordem a pele; apreciar a solenidade de penhascos e baías, falésias e enseadas, zonas naturais de cortar a respiração, particularmente belas ao entardecer; sentir a terra avermelhada a contrastar com o verde dos pomares; contactar com a música e o folclore da região; dar uma saltada à aldeia do Popeye, recriada para o filme deste herói lendário que faz as delícias da criançada. Tudo isto nos oferece Malta, miscelânia de lazer e cultura que só pode purificar o corpo e o espírito.




5. Comino, a meio caminho entre Malta e Gozo, é a ilha mais pequena do arquipélago. Para mim, também a mais paradisíaca, porque desabitada e intacta, com a sua Lagoa Azul e os aromas intensos a cominho (que lhe dá o nome) e outras ervas aromáticas.



As águas oscilam entre um azul-turquesa e um verde-esmeralda que inebriam os sentidos. E depois, a luminosidade, a claridade azul difícil de descrever, os aromas adocicados suspensos no ar. Dir-se-ia que os deuses andaram por aqui, que deixaram a sua marca neste lugar único e desde sempre pressentido. Espaço mágico e íntimo, ainda não manchado pela intervenção humana, onde nos sentimos felizes e reconciliados com a natureza e por algum tempo lavados das feridas da existência.




6. Se nas viagens se procura sempre algum exotismo, em Malta ele surge-nos diante dos olhos nos autocarros que datam seguramente de há meio século. São lentos, de um amarelo torrado com uma risca laranja. Conduz-se pela esquerda e os preços são bastante convidativos. Em todos eles encontramos iconografia religiosa, complementada com dizeres do tipo: In God we believe/We believe in God. Se não tocamos à campainha (puxando um fio que percorre o interior do tejadilho) o autocarro não pára e só podemos sair na estação seguinte. O parque automóvel é degradado, com carros (normalmente italianos) que já não circulam em países europeus mais desenvolvidos e ainda assim em mau estado de conservação: espelhos retrovisores partidos ou inexistentes, latas amolgadas ou riscadas.



7. Finalmente, e porque não há bela sem senão, nas águas cristalinas de Malta vivem e ensaiam graciosos passos de dança as temíveis medusas (jellyfish, peixe gelatina), conhecidas entre nós por alforrecas. Picam (ou queimam?) que se farta e há avisos a anunciar a sua presença por tudo quanto é sítio. Digamos que sobre o paraíso se abateu, pronta a retirar-lhe alguma beleza e encantamento, a urticante maldição das alforrecas.



8. Todos os sítios de Malta são já e só uma lembrança do tempo em que, andando muito a pé, mal se dava pelo cansaço. Dias em que parecia andarmos nas nuvens, portanto sem colocar os pés no chão.


Recordar agora esses dias é regressar a uma alegria que não se extingue, porque os grandes dias são aqueles em que o tempo passa sem darmos conta disso e nos parecem mais pequenos. Alegria breve – mas duradoura.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

MOUVA #5 – Como fechar «Aquele Querido Mês de Agosto» na Palhaça

Este domingo, dia 30, a Praça de São Pedro, na Palhaça, vai ser palco da última edição de Verão do MOUVA (Mercado de Objectos Usados, Víveres e Artesanato). Agosto já inspirou filmes e músicas populares e o MOUVA também não lhe resiste. Quer fazer deste fim do mês, numa praça viva, uma futura viva e querida memória, mas, para isso, precisa da sua colaboração e dinamismo.

Comércio variado, palhaços-músicos, obras criativas em exposição ao ar livre, lazer à sombra, idiomas cruzados, música «com todos», uma contadora de histórias infantis e pintores faciais vão espalhar-se pelo recinto. O resto do programa do MOUVA depende de si, da sua espontaneidade, do seu contributo cívico e artístico. «Faça o seu prório MOUVA», eis o mote. O desafio-extra passa por «fazer o MOUVA dos outros diferente», com animação musical, truques de magia ou outros talentos.

A organização do certame diz estar «consciente de que Agosto convida naturalmente à praia, um concorrente quase desleal de um evento de pequena-média dimensão, longe dessa tentadora praia». Mesmo assim, garante não cruzar os braços e promete «insistir em solidificar, apesar dos limites, o projecto, que é um compromisso com a vila e com quem por lá já passou, que se pretende mais duradouro e firme do que um castelo de areia».

Entre as 10h da manhã e o meio da tarde, terá a oportunidade de se cruzar, várias vezes, com os Palhatrapos, uma dupla de sopros e percussão, que apostará num «repertório essencialmente medieval e tradicional». Poderá ainda deixar a sua marca criativa num poema colectivo a estender na corda ao final do dia. Pela manhã, uma actividade com crianças, mas para todas as idades centrar-se-á no que é «possível inventar/fazer/criar numa praça, com crianças e com a criança que ainda habita os adultos». Nas colunas, haverá música a percorrer os quatros cantos do mundo.

O MOUVA continuará atento e disponível para abraçar novas iniciativas ao longo do Outono, depois de deixar a praça temporariamente no último domingo de Setembro. Mantenha-se inteirado com o blog oficial (http://mouvapalhaca.blogspot.com/).

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Uma viagem com barba


Este vídeo relata a viagem de Christoph Rehage que percorreu 4,646 Km a pé na China durante um ano (9 Nov 2007 a 13 Nov 2008). Fica aqui a surpresa de um vídeo que ele produziu.

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

O Partido Nulo - A opção de dizer «Nós, eleitores, existimos»?




Há quem desvalorize a hipocondria, chamando-lhe «mania», mas é bem possível que seja um sinal de que algo vai mal com quem diz padecer das doenças x, y, b, c, d, k e z.

Há quem desvalorize - os partidos proeminentes, por exemplo - as abstenções gordas, os votos em branco ou nulos, mas o que é certo é que a democracia representativa e os partidos com assento na AR cada vez menos representam os cidadãos. Basta perguntar quantos novos militantes há nos partidos eleitos e ler as percentagens, comparando a abstenção com o somatório dos votos em partidos. Os ditos «grandes partidos» são minoritários, logo, a noção de representatividade é falaciosa, falsa.

Que este Partido Nulo sirva, pelo menos, para os cidadãos, e os partidos reflectirem sobre o que têm feito - não mais do que guerras interpartidárias e algumas leis, muitas vezes discutidas a correr - e o sobre o que querem fazer em comum pelo Bem Comum (se realmente ainda é esse o objectivo-mor dos partidos - duvido).

O próprio sistema - criado pelos media e pelos partidos mais sonantes - abafa a existência de partidos não representados na AR, ignorando-os, não lhes dando voz. O que ouvimos/conhecemos sobre os movimentos cívicos ou mesmo sobre o MEP e o MMS, supostamente novos partidos?

Se o Partido Nulo existe e tem aderentes é porque não é uma mera brincadeira do Rui Zink ou uma rábula dos Gato Fedorento. É porque existe uma história, uma tendência eleitoral (que nos leva a questionar a falência ou fragilidade de algumas instituições democráticas e o próprio curso do Sufrágio Universal).


Segue, abaixo, um excerto do manifesto do Partido Nulo (clicando sobre este, poderão ter acesso ao texto na íntegra):

Há uma crise grave de representatividade dos orgãos de soberania portugueses.

O governo ainda em funções foi mandatado para governar com maioria absoluta durante quatro anos por 121 deputados da Assembleia da República que colheram 2 milhões e meio de votos, ou seja menos de 30% do total dos votantes inscritos.

Cada um dos 22 eurodeputados portugueses foi eleito por não mais de 140 mil votantes.

A maioria dos representantes autárquicos portugueses representa não mais de 30% do total de eleitores.

Caso extremo de falta de representatividade democrática, o presidente de Câmara Municipal de Lisboa foi eleito em 2007 por um em cada dez eleitores.

A abstenção tem-se tornado assim num conveniente pretexto para governações minoritárias tendencialmente alheadas dos interesses dos cidadãos.