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sábado, 11 de abril de 2009

Cálice

“Pai, afasta de mim esse cálice”. Esta é a frase bíblica que Jesus Cristo teria pronunciado quando, após o término da Última Ceia, retirou-se para o horto do Getsêmani para orar, já que previa sua Paixão iminente.

«Cálice», de Gilberto Gil em rara parceria com Chico Buarque, composta em 1973, estende a frase: “Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”. Eram ainda os anos da ditadura no Brasil, e a música foi composta numa Sexta-feira Santa, com muita paixão, revolta e contestação. Nesse clima a ideia dos autores foi contrapor a letra com um texto bíblico, até porque naqueles tempos o mote das autoridades era: «Cale-se!»

in http://inaciomorais.multiply.com/

sábado, 28 de março de 2009

Aldeia (G)Local

Nos chamados «dias inúteis» da semana, deixo para leitura e/ou reflexão duas letras de canções de uma banda portuguesa de culto: os Mão Morta. Convido-vos a, com as palavras do Adolfo L. C., iniciar uma viagem por território semi-ficcional-semi-real sobre o «mundo profundo», que provavelmente conhecerão de perto.

«Conferência das Nações» e «Aldeia Global» - as letras em questão - integram um álbum conceptual, assumidamente inspirado no situacionismo (mais um «ismo» discutível), a meio caminho entre a vida real e a arte.

Em vésperas da muito aguardada reunião do G20, em tempo de pacotes multi-crise, aproveito as já velhas potenciais «novas tecnologias», para partilhar dois textos - actuais, ainda que sujeitos a críticas, editados em 1997 - sobre os prós e os contras das globalizações e sobre as reuniões megalómanas de megapoderosos para discutir algumas soluções para a saída do pessimismo generalizado em que as falhas na regulação económica e financeira mergulharam o globo. Será diferente desta vez? Sugiro que preparemos, entretanto, as nossas reuniões informais tamanho P, com os globos oculares despertos, para dar a volta por cima, também a nível local, deste sentimento de incerteza.


ALDEIA GLOBAL

anda eufórica toda a gente com a era da informação,
fechada em casa, ligada à rede ou grudada à televisão,
na vertigem das notícias em constante circulação,
sempre mais e mais depressa,
tornou-se a grande obsessão.

"é a aldeia global" - explicam num júbilo imbecil,
prontos a desfilar o rosário de maravilhas dos novos tempos,
sem discernirem que aldeia sempre foi o sinónimo de isolamento e conformismo,
de mesquinhez, aborrecimento e mexerico,
e que, de qualquer modo, o que verdadeiramente importa se mantém secreto.

do além-mar ou da máfia - julgam que tudo se pode saber econonomia ou política?
o difícil é o escolher crimes de sangue, relatos de amor são mais fáceis de perceber
"é a aldeia global" - explicam num júbilo imbecil, prontos a desfilar o rosário de últimos acontecimentos,
sem discernirem que, contrariamente ao mundo observado directamente,
em que a relação com o real é absoluta, estão a consumir meros resumos simplificados da realidade,
manipulados num fluxo de imagens de que são simples espectadores e
cuja escolha, cadência e direcção não controlam,
nem têm possibilidade de verificar a veracidade,
e em que, finalmente, no frenesim meticulosamente planeado de dados surpreendentes,
o que verdadeiramente importa se mantém secreto.
o que importa é saber onde raio se oculta o poder.



CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES:

Terminou sem qualquer acordo a 23ª conferência das nações.

Reunida com o objectivo de discutir um limite para o número de vítimas de atentados causados pela concorrência empresarial, sobre a mesa estava uma proposta das organizações não governamentais para reduzir, até 2010, o número global de vítimas em 20%, menos um milhão do que as actualmenteverificadas.

A União dos Estados Avançados, responsável por mais de 50% dos números existentes, considerou a proposta irrealista, com consequências catastróficas para a economia da união economia mundial.

No que apelidou um gesto de boa vontade, a U.E.A. propôs um compasso de espera para a reconversão da indústria, através da manutenção do actual número de vítimas até 2010. A Comunidade de Estados concorda em reduzir o número de vítimas, mas defende uma calendarização diferente: propõe menos 5% até 2001, 10% até 2010 e 20% até 2015.

O escalonamento é justificado com os custos de adapatação que a redução implica. Por sua vez, a Federação dos Estados do Sul, defensora da redução global proposta, reivindica um aumento de 40% da sua quota de vítimas, de forma a atingir o nível da União dosEstados Avançados.

Face ao impasse das negociações foi marcada nova conferência das nações para 2001. Até lá, estima-se que o número de vítimas ultrapasse os seis milhões por ano.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

[Efemérides] Entrudo, Cultura & Quejandos

0) «Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se» (Virgílio Ferreira)

1) Sobre o Carnaval na Palhaça, de ontem e hoje, o que vos apraz dizer?

2) Passam, hoje, 22 anos sobre a morte de José Afonso, cantautor que, qual andarilho, andou e deambulou entre a música tradicional portuguesa (Beira Baixa, Alentejo, etc.) e a música de outras geografias (países africanos, Brasil, Cuba, etc), entre a convenção e o risco, o país e o mundo; um artista cuja obra (estética, cívica, poética e etnográfica) teve sempre subjacente a ideia que ele alinhavou como «contos
velhos, rumos novos»
(tradição e contemporaneidade, em manta de retalhos, em suma); cidadão inegavelmente empenhado, destemido, e, também por isso, controverso.

Para os interessados, segue abaixo um compêndio da vasta obra de Afonso (todos os álbuns, letras e alguns vídeos disponíveis, desde os tempos dos fados de Coimbra à época da multiculturalidade e da doença), armazém-acervo organizado e de circulação sem obstáculos, em formato de site .


3) Em época de Entrudo, fica a letra de «Entrudo», canção popular da Beira Baixa, popularizada por Zeca Afonso:

Ó entrudo Ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é qu'eu estou bem
Que no monte é qu'eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é qu'eu estou bem

Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira



4) A encerrar a saga sobre (des)máscaras, eis um vídeo com imagens dos Caretos de Podence, Trás-Os-Montes, acompanhadas da música da criativa e ousada Stealing Orchestra: