quarta-feira, 21 de outubro de 2009

José Saramago sobre a «Bíblia»

Era impossível que novo romance passasse despercebido devido ao tema escolhido: Caim e a Bíblia. Ao continuar a sua interpretação bíblica, que o levou ao exílio após o veto ao 'Evangelho segundo Jesus Cristo', o Nobel volta a abanar a estrutura de um dos edifícios que mais o indispõe, o das religiões. As reacções explodiram quando quase ninguém leu 'Caim'

A Igreja Católica portuguesa reagiu em bloco ao novo romance de José Saramago, ainda o livro estava a ser posto à venda nas livrarias. Os primeiros comentários de uma polémica que está longe do seu auge, e das réplicas que decerto provocará, tiveram origem nas declarações que o Nobel efectuou domingo à noite em Penafiel, onde considerou que "sem a Bíblia seríamos outras pessoas. Provavelmente melhores". Depois, endureceu e afirmou: "Não percebo como é que a Bíblia se tornou um guia espiritual. Está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas." Referiu ainda que costuma chamar ao livro sagrado dos cristãos "um manual de maus costumes".

Para José Saramago, Caim "é uma espécie de insurreição em forma de livro", que pretende levar os leitores à reflexão: "Nós somos manipulados todos os dias. Temos de lutar contra isso. Que a leitura deste livro vos ajude a ver o outro lado." Um conselho do autor do já polémico Evangelho segundo Jesus Cristo, que, garante, não é contra Deus que escreve: "Até porque ele não existe. É contra as religiões." Porque não servem para aproximar as pessoas nem nunca serviram, explica.

As reacções a Caim serão bastantes e diversas e uma das primeiras foi observada no presidente da Câmara de Penafiel, antigo seminarista, que se manteve impávido, evitou a polémica e só disse: "Respeito as opiniões de cada um. Não me atreveria a criticar as suas convicções. Quanto às minhas, guardo-as para mim", disse Alberto Santos.

O escritor não foi apanhado de surpresa pelas reacções imediatas ao seu novo livro. Questionado pelo DN sobre a rapidez da resposta da Igreja, considerou: "O que me surpreende é a frivolidade dos senhores da Igreja. Não leram o livro e vieram logo, com insólita rapidez, derramar-se em opiniões e desqualificações, tanto da obra como do seu autor. Como falta de seriedade intelectual, não se poderia esperar pior. Compreendo que tenham de ganhar o seu pão, mas não é necessário rebaixarem--se a este ponto."

Em resposta à acusação de D. Manuel Clemente sobre a sua "ingenuidade confrangedora" sobre a Bíblia respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio. Para mistificações não contem comigo."

Também não evitou comentar as afirmações do porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, que sugeriu "ser uma operação de publicidade" dizer mal da Bíblia: "O padre Manuel Morujão já disse que a leitura de Caim não é uma das suas prioridades. Agradeça-se-lhe a franqueza. Estranha coisa, porém, é um porta-voz que não sabe de que está a falar."

Inquirido ainda sobre se este regresso a um tema religioso denotava uma fixação, José Saramago foi claro: "É um motivo de reflexão, não uma fixação." Depois de ter escrito sobre a Bíblia, só faltava saber se pretende futuramente escrever sobre o Alcorão, ao que respondeu: "Não está nas minhas intenções, mas nunca se sabe."

Uma coisa é certa, pela quantidade de autógrafos dados em Penafiel, Caim não vai cair no esquecimento dos fiéis de Saramago.


in DN

4 comentários:

Dona Cris disse...

Não cairá mesmo...
Irei hoje mesmo a livraria e aumentarei a confraria de ateus, respeitando os que acreditam, pois como disse José, também não sou contra, como ser contra uma coisa que não existe?
Muito interessante o post.
Abraços

Dona Cris

TPC disse...

Partindo do pressuposto, errado ou não, mas tão legítimo como o contrário, de que a «Bíblia» é literatura (com muitas metáforas, e interpretações e aproveitamentos políticos possíveis), escrita por pessoas de carne e osso, não será de estranhar que a Bíblia, tal como alguma literatura de Saramago (um humano que escreve muito bem) traga à tona o pior e o melhor da Humanidade («bons e maus costumes») - bons textos, outros menos interessantes. Como o Homem, no fundo? Quem é exclusivamente bom ou exclusivamente mau? «Que atire a primeira pedra»... :)

Nas narrativas, se não se quer um texto monótono de «peace and love» do início ao fim, é suposto haver conflito, choques, para se resolverem ou para fazer reflectir sobre a complexidade das relações humanas. Pode haver também redenção. Porque não haveria de haver conflito, «maus costumes», na «Bíblia», uma manta de retalhos, uma mera produção de seres humanos, repletos de conflitos interiores ou com os outros?

Saramago tem razão em algumas questões (as religiões criam mais cisões do que ligações; o Vaticano, por exemplo, merece milhentas críticas, a começar pelo uso abusivo que faz de certas partes da Bíblia para amedrontar os mais tementes, sobre questões do corpo, de género, e moral sexual ou para se desculpar de apoio a guerras), mas fixa-se demasiado numa só Igreja ou religião (também não será a teocracia no Irão é um local quase infrequentável para ateus ou laicistas ou iranianos anti-regime?), além de ocultar que o comunismo também foi/é uma religião que, para o bem e para o mal, parece ter muito a ver com o Cristianismo. Foi Marx que escreveu «A religião é o ópio do povo»?! Em que se tornou o comunismo??? É, ainda, legítimo pensar que Jesus Cristo seria um proto-comunista.

Porquê tanta polémica? Há já quem -Mário David, um eurodeputado - sugira a Saramago que renuncie à nacionalidade portuguesa por ter sido livre de emitir uma opinião sobre a «Bíblia. Estamos em democracia ou não?

Ass: Um agnóstico, que quer ler «Caim» e que quer voltar à «Bíblia».

TPC disse...

Novos desenvolvimentos:

http://www.publico.clix.pt/Sociedade/saramago-diz-que-ha-muita-coisa-na-biblia-que-vale-a-pena-ler_1406198#

Dona Cris disse...

Por suposto que há, e também é válido que as narrativas bíblicas sejam uma reprodução da moral e comportamento humanos, por outro lado, creio relevante este post ter lembrado que vários sacerdotes antes de lerem a obra, utilizaram-se de artimanhas dogmáticas e espaços para duras críticas, sobre o que sequer havia sido lido, o que já demonstra de antemão a manipulação, tema frequente na literatura de Saramago e isso quer dizer...que para bom entendedor 1/2 palavra basta.